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Ebola: ONU cria esquema de guerra contra fome

Jamil Chade - Correspondente de O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2014 | 07h 30

Pessoas em áreas de exclusão estão fugindo não apenas da doença, mas da falta de comida; OMS volta a destacar que o surto ‘não está sob controle’

Atualizada às 23h34

GENEBRA - O estabelecimento de cordões sanitários em pelo menos três países africanos para tentar frear a proliferação do vírus Ebola exige que a Organização das Nações Unidas (ONU) adote um esquema de guerra para alimentar 1 milhão de pessoas isoladas nestas zonas. Os alimentos poderão ser lançados até mesmo de aviões e helicópteros, segundo documentos oficiais obtidos pelo Estado
Dados divulgados nesta terça apontam que o número de mortos e afetados continua aumentando e, para a OMS, o estabelecimento dessas zonas de quarentena é “fundamental”. “É importante conter a doença. Se isso acontecer, ganhamos a guerra”, declarou a porta-voz da entidade, Fadela Chaib. No total, 2.240 pessoas já foram infectadas e há 1.200 mortos. Em dois dias, 84 óbitos foram registrados, além de 113 infecções.

Abbas Dulleh/AP
Liberiano observa o corpo de um homem suspeito de ter morrido por causa do Ebola

Pelo menos quatro áreas foram isoladas em Serra Leoa, Libéria e Guiné. A OMS insiste em defender a medida e garante que a restrição não é uma contradição em relação ao fato de que não recomenda que viagens sejam evitadas para esses países. Mas admite que, agora, as pessoas mantidas nessas regiões precisam ser alimentadas e o abastecimento de água deve ser garantido.

A realidade é que, em muitos vilarejos, a fuga de pessoas está relacionada mais com a falta de alimentos do que com o temor da doença. “Garantir de forma regular um abastecimento de comida é um meio potente para limitar movimentos desnecessários de pessoas”, indicou a OMS em um comunicado. “Ainda que prevenir a transmissão do Ebola seja crucial, é essencial que as pessoas nessas zonas tenham comida, água, bom saneamento e outros suprimentos básicos”, afirmou. 

O plano para abastecer a região está sendo desenhado em colaboração com o Programa da ONU para Alimentos e não se descarta a possibilidade de usar aviões para soltar os alimentos nas áreas mais infectadas, medida duramente criticada por ONGs locais. A primeira etapa já começou a ser adotada, na região de Kailahun, em Serra Leoa: 27 mil pessoas começaram a ser alimentadas pela ONU e o número deve chegar a 35 mil nos próximos dias. A OMS também indicou que hospitais estão sendo abastecidos, pois garantir a alimentação dos pacientes é considerado fundamental no combate à doença. 

Evolução. A OMS não hesitou em admitir que o surto “não está sob controle”. “As experiências recentes mostram que o progresso é frágil, com um risco real de que o surto possa ganhar um novo impulso”, alertou. “A proliferação para novas zonas continua.” 

Apesar do alerta, a OMS fez questão de publicar um informe que aponta que suas recomendações estariam começando a provar que podem ser o caminho para superar a crise. “Até o momento, nenhum caso foi confirmado fora de Guiné, Libéria, Nigéria e Serra Leoa.”

Doentes. A Libéria anunciou nesta terça que os 17 pacientes com suspeita de ter o vírus Ebola, que estavam em um centro de West Point que foi saqueado no fim de semana, se apresentaram às autoridades sanitárias. Dessa forma, não há no momento razão para estender a área de quarentena. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS