ARI FERREIRA | ESTADAO CONTEUDO
ARI FERREIRA | ESTADAO CONTEUDO

Ele vivia no ‘fluxo’,vendendo e usando

O analista em microscopia Alan Alexsander Lunardi era apenas um dos dependentes usados pelos chefes do tráfico na Cracolândia para atuar como vendedores diretos

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2017 | 16h48

Durante sete meses, o analista em microscopia Alan Alexsander Lunardi, de 43 anos, fez dupla jornada na Cracolândia. Em um turno, trabalhava em uma das barracas da feira livre de drogas na Alameda Dino Bueno. Ao “fim do expediente”, gastava tudo que havia faturado na compra de crack para consumo próprio.

Lunardi era apenas um dos dependentes usados pelos chefes do tráfico local para atuar como vendedores diretos no chamado ‘fluxo’, concentração de usuários de drogas. “Os traficantes forneciam a droga e a barraca, faziam nossa segurança com os olheiros e a gente ficava com 20% de tudo que vendia”, conta.

O analista diz que a barraca funcionava 24 horas por dia com a operação dividida em três turnos – Lunardi fazia o último, das 15 horas à 1 hora. Neste período, chegava a faturar de R$ 3 mil a R$ 4 mil por dia. “Ao final, a gente subia para o quarto de um dos hotéis da região, entregava o dinheiro e a droga que sobrava para o chefe e, se as contas estivessem todas certas, pegávamos nossa parte e eles ainda ofereciam um pouco de droga de brinde”, conta.

Lunardi permaneceu no esquema entre outubro de 2016 e abril de 2017, quando decidiu se internar. Pesou em sua decisão o sucesso de sua primeira internação, em 1998. “Na época, passei nove meses em uma comunidade terapêutica, fiz até estágio como monitor de lá. Depois que saí, fiquei 13 anos limpo, mas, em 2011, não soube lidar com uma separação e recaí”, conta.

A primeira reincidência foi com o álcool. Em seguida, Lunardi passou a consumir crack. “É uma coisa muito bruta você recair depois de tanto tempo livre do vício. Tive vergonha de contar para a minha família e comecei a viajar de um Estado para outro para não ficar perto deles. Foi em uma dessas viagens que entrei no crack.”

Quando voltou para São Paulo, ficou um tempo pedindo dinheiro em cruzamentos da cidade, mas foi convencido por colegas a ir “trabalhar” na feira livre da Cracolândia. “O crack tem um poder hipnótico, ele faz você sair do seu estado de sanidade. Qualquer coisa que você não faria, por uma questão de caráter, você passa a fazer se precisar comprar a droga.”

Alerta. Há dois meses na comunidade terapêutica, ele diz confiar na recuperação. “A bagagem que eu trouxe da primeira internação me faz ver que essa é uma doença e que tenho de estar sempre alerta.”

Mais conteúdo sobre:
Cracolândia São Paulo Crack Drogas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.