FABIO MOTTA / ESTADAO
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Empresária paga teste de zika em laboratório privado no Rio

Grávida de 23 semanas e com sintomas de doença, Janaína Pinheiro, de 39 anos, relata falha em notificação e perda de exames

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

03 Dezembro 2015 | 03h00

RIO - A empresária Janaína Pinheiro, de 39 anos, vive a angústia de estar com suspeita de zika. Grávida de 23 semanas de Oliver, ela começou a sentir os sintomas da doença no dia 21, horas depois do marido. Passou pelo que chama de “via-crúcis”: o hospital particular que eles procuraram não fez a notificação obrigatória à Secretaria de Saúde do Rio. Ela teve o sangue coletado em rede pública, mas as amostras teriam sido perdidas no Laboratório Central Noel Nutels, do governo do Estado. Dez dias após os primeiros sintomas, pagou para fazer a testagem em laboratório particular. Exame de ultrassom revelou anteontem que o bebê “por enquanto” está bem.

“Chorei de alívio o dia inteiro”, disse ela, mesmo sabendo que terá de fazer acompanhamento mais intenso até o fim da gravidez. O marido de Janaína, Ricardo de Sá, de 41 anos, foi o primeiro a aparecer com manchas vermelhas no corpo e ter febre baixa.

"Estava preocupada com ele, cuidando da nossa filha. Nem percebi que também estava com manchas. Quando acordei no dia seguinte, meu corpo inteiro coçava.” O casal e a filha, de 1 ano e 7 meses, procuraram a emergência do hospital Niterói D’Or. Sá, com falta de ar, entrou primeiro, enquanto Janaína ficava com a filha. 

“A médica veio até a recepção, disse que tinha colocado a emergência em quarentena porque meu marido estava com rubéola. Só que já tive rubéola. Expliquei isso para ela e perguntei qual seria o diagnóstico diferencial, se ela faria testagem para zika ou dengue. Ela disse que só pediria exame para rubéola. Eles têm um quadro explicando o passo a passo do atendimento de paciente com Ebola, mas não sabem o que fazer quando têm pacientes com suspeita de zika ou dengue.”

No dia seguinte, Janaína ligou para a Secretaria de Saúde de Niterói, cidade onde mora. Respondeu a um questionário e foi enquadrada como paciente com suspeita de zika. A funcionária marcou horário para que ela e o marido fossem atendidos no mesmo dia em posto de saúde. O resultado foi prometido para dali a dois dias. Uma semana depois, sem notícias, foi informada de que o “Noel Nutels teve um revés com as amostras” e ela teria de ir até a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), na zona norte do Rio, para coletar sangue novamente. “A cabeça pira. Você vê que os números de microcefalia explodiram no País. Tudo o que você pensa é: ‘o que será de mim?’.”

Janaína pagou o exame em laboratório particular e fez a ultrassonografia no mesmo dia. “Saí da sala chorando”, disse, após receber o resultado negativo.

Estado. A Secretaria de Estado de Saúde nega problemas no Noel Nutels e informa que as amostras ainda estão sendo processadas. A Rede D’Or informou que a paciente não se registrou para atendimento, apenas o marido. A médica que a atendeu teria pedido que Janaína fizesse o registro, mas ela não aceitou.

O Estado do Rio tem 23 casos de microcefalia identificados no ano. Em 2014, foram registradas dez crianças com a má-formação.

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