Evaristo Sá/AFP
Evaristo Sá/AFP

Entenda a 'obstrução urológica' que afetou Michel Temer

Especialistas ouvidos pelo 'Estado' explicam o problema que fez o presidente ser internado nesta quarta-feira

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2017 | 19h27

SÃO PAULO - A "obstrução urológica" que afetou o presidente Michel Temer e o levou a um quadro de retenção urinária tem como causa mais comum, de acordo com especialistas ouvidos pelo Estado, uma condição conhecida como hiperplasia da próstata benigna.

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É uma situação em que a glândula pode crescer tanto no entorno do canal da uretra (por onde passa a urina a partir da bexiga), comprimindo-o de modo a não mais permitir a passagem do fluído. Ele, então, vai se acumulando na bexiga, e o paciente pode sentir muita dor. A saída é passar uma sonda para esvaziar a bexiga.

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O urologista Joaquim Claro, médico coordenador do Centro de Referência da Saúde do Homem, explica que a expressão "obstrução urológica", além de muito vaga, "a rigor, cientificamente, não existe". Um termo mais próximo que esse que existe, segundo ele, é a "obstrução prostática". 

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"Claro que em medicina nada é 100%, mas na maioria dos casos é benigna e, em geral, significa ausência de câncer. É quase sempre em casos de hiperplasia benigna que próstata cresce tanto a ponto de obstruir a uretra e o paciente não conseguir urinar", explica o médico.

Claro explica que a partir dos 45 anos de idade é normal nos homens começar a ocorrer um crescimento da próstata. A partir dos 70, é uma situação que já atinge quase todos os homens. Há casos assintomáticos, mas podem aparecer alguns sintomas. Estatísticas compiladas pelo médico Dráuzio Varella em seu site apontam que o crescimento da próstata atinge 25% dos homens na faixa dos 40 aos 49 anos, subindo para 80% naqueles a partir de 70.

 

 

"Urinar com jato mais fraco, ir muitas vezes ao banheiro durante o dia e acordar várias vezes à noite pra urinar são sintomas de hiperplasia da próstata benigna. Isso pode ser tratado com medicamentos, mas, se não for tratado, pode evoluir para um quadro de fechar o canal e ter retenção urinária", afirma Flavio Trigo, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia em São Paulo.

Tratamento

Nesse caso, Trigo explica que o procedimento de passar uma sonda para alívio da bexiga é a primeira ação. Depois é preciso investigar o que pode ter levado a esse quadro. Há tratamentos possíveis com medicamento, mas se não há melhora, em último caso é recomendável fazer uma cirurgia para criar um túnel para o paciente voltar a urinar.

"Em geral é um quadro de boa evolução. Após tratar clinicamente ou mesmo com a desobstrução cirúrgica, o paciente volta a urinar e ganha qualidade de vida", diz o presidente da Sociedade Brasileira de Urologia em São Paulo.

Os médicos foram questionados pela reportagem sobre se a tal obstrução não poderia ser um sintoma de câncer de próstata, mas ambos disseram achar que seja pouco provável.

"Um câncer pode levar a isso? Pode, mas é menos comum. E é pouco comum também diagnosticar um caso de câncer de próstata por causa de retenção urinária. Para chegar a isso seria um caso muito avançado, e com os métodos modernos de detecção, como o exame de e de PSA, diagnostica-se muito antes, bem no comecinho", complementa Trigo.

Já Claro defende que dificilmente um câncer de próstata faça a glândula crescer tanto a ponto de obstruir a passagem da urina, em um fechamento completo. "Em mais de 90% dos casos isso ocorre por crescimento benigno, em que o paciente está em muito bom estado geral de saúde e acaba dando tempo para a próstata crescer."

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