USDA/Divulgação
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Epidemia de zika acabará sozinha em três anos, dizem cientistas

Próxima epidemia deverá demorar mais 10 anos, segundo britânicos; combate ao mosquito pode prolongar surto, dizem autores

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

14 Julho 2016 | 16h03

De acordo com um artigo publicado na revista Science por cientistas britânicos, a epidemia de zika na América Latina provavelmente desaparecerá sozinha dentro de, no máximo, três anos. Os pesquisadores do Imperial College London afirmam ser improvável que uma nova epidemia de zika de larga escala ocorra nos próximos 10 anos, embora possam surgir surtos menores.

O estudo também afirma que a estratégia de combater o Aedes aegypti, transmissor do vírus, pode ter efeito contrário ao esperado, prolongando o surto. Cientistas brasileiros ouvidos pelo Estado, no entanto, discordam dessa hipótese.

A explicação para o fim da epidemia é o fato de que as pessoas ficam imunes ao vírus após a primeira infecção. Isso produz um fenômeno conhecido como "imunidade de rebanho": cada vez mais gente produz anticorpos e a epidemia atinge um estágio no qual o número de pessoas suscetíveis à infecção é tão pequeno que a transmissão não se sustenta em larga escala.

De acordo com os autores da pesquisa, depois do fim da atual epidemia, levará 10 anos para que surja uma nova geração de pessoas que nunca foram infectadas. O estudo foi liderado por Neil Ferguson, da Escola de Saúde Pública do Imperial College London.

 

 

"Esse estudo usa todos os dados disponíveis para fornecer uma compreensão de como a doença vai se desdobrar - e nos permite avaliar a ameaça em um futuro iminente. Nossa análise sugere que não é possível conter o avanço da zika, mas que a epidemia vai acabar sozinha em dois ou três anos", disse Ferguson.

No artigo, os cientistas também afirmam que a epidemia não poderá ser controlada com as medidas usadas atualmente para combatê-la. Eles alertam que combater o mosquito em larga escala, como os governos estão fazendo, tem efeito limitado - como ficou demonstrado no caso da dengue - e pode até mesmo ser contraproducente.

"Retardar a transmissão entre as pessoas faz com que a população leve mais tempo para atingir o nível de 'barreira de rebanho' necessário para que a epidemia cesse. Além disso, combater o mosquito pode fazem com que a janela entre as epidemias - que estimamos ser de 10 anos - acabem ficando mais curtas", explicou Ferguson.

Segundo Ferguson, as experiências do combate ao mosquito Aedes aegypti para conter as epidemias de dengue já mostraram que essas medidas têm impacto limitado. "O vírus (da zika) é muito semelhante ao da dengue e é transmitido pelo mesmo mosquito. Mas experiências prévias com a dengue mostram que controlar seu alastramento é incrivelmente difícil. Além disso, os esforços para conter a epidemia precisariam ter sido implementados muito antes na epidemia de zika para que tivessem efeito - mas quando se notou a escala do problema já era tarde demais", disse.

Tarde para as vacinas. Segundo os cientistas, se as projeções estiverem certas, os casos de zika já terão uma redução substancial no fim de 2017, ou antes. "Isso significa que quando as vacinas estiverem prontas para serem testadas, talvez não tenhamos casos de zika suficientes na comunidade para fazer os ensaios clínicos", disse o cientista.

Para fazer o estudo, os pesquisadores usaram todas as informações disponíveis sobre as epidemias de zika e dengue no continente latino-americano e, a partir daí, montaram um modelo matemático que representa a atual epidemia e futuras ondas de transmissão.

"Usando nosso modelo, previmos que a transmissão de larga escala não vai recomeçar por pelo menos dez anos - até que surja uma nova geração da população que não foi exposta ao vírus zika. Isso espelha outras epidemias, como a de chikungunya, nas quais vimos um surto explosivo seguido por longos períodos com poucos novos casos", disse Ferguson.

Polêmico. Pesquisadores brasileiros que estudam a atual epidemia de zika não corroboram a conclusão do estudo britânico de que o combate ao mosquito Aedes aegypti poderia não ser uma boa estratégia. 

Para o virologista Pedro Vasconcelos, diretor do Instituto Evandro Chagas e membro do comitê de especialistas da Organização Mundial de Saúde (OMS), o artigo da Science “tem aspectos interessantes, mas é polêmico”. Segundo ele, abrir mão do combate ao mosquito pode não ser uma boa ideia, pois amenizará a epidemia, mas não erradicará a doença.

“A imunidade de rebanho pode sim contribuir para a diminuição dos casos de zika, mas não para a eliminação da doença. A vacina será fundamental para obter êxito na eliminação do vírus”, disse. Segundo ele, a tendência é que a zika se torne endêmica, como a dengue, “causando surtos esporádicos e epidemias a intervalos variáveis.”

Segundo Vasconcelos, o combate ao mosquito realmente tem se mostrado incapaz de controlar epidemias como a dengue, mas isso se deve à falta de investimentos em saneamento. “Temos visto ano após ano a ocorrência de epidemias enormes com tendência sempre de crescimento, mostrando a ineficiência do controle vetorial em países como o Brasil onde há enorme déficit de saneamento e pouco investimento em educação em saúde nas escolas.”

Temerário. Deixar de combater o mosquito é uma alternativa "temerária e lastimável", segundo Paolo Zanotto, professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador da Rede Zika - uma força-tarefa dos cientistas paulistas para combater a epidemia de zika.

"O problema com a idéia de evitar o combate ao Aedes aegypti, em particular para aumentar a imunidade contra vírus zika, demonstra uma visão perigosamente limitada  do papel deste vetor na transmissão de diversos vírus altamente perigosos", disse Zanotto.

Segundo ele, o Aedes aegypti tem a capacidade de transmitir os sorotipos 1, 2 e 3 do vírus da dengue, dos vírus da chikungunya e da febre amarela e de mais de uma dezena de outros vírus emergentes  que estão a  caminho do Brasil.  "Ademais, não temos dados de soroprevalência da população brasileira e, portanto, não sabemos quantas pessoas foram de fato infectadas em 2014, 2015 e 2016. Portanto, modelos epidemiológicos e estimativas de risco realistas são frágeis neste momento", disse Zanotto.

Zanotto afirma não saber se em outros países das Américas existem dados suficientes de soroprevalência, que é o número de pessoas que tiveram a presença do vírus verificada em um teste sorológico. "Portanto, a recomendação de evitar o controle do Aedes aegypti é temerária e lastimável", declarou o cientista.

Segundo Zanotto, não há nenhuma base razoável para concluir que é melhor deixar de combater o mosquito. "Outro aspecto não considerado é que estamos vendo surtos de febre amarela na Ásia e poderemos ter uma reintrodução desse vírus no Brasil, assim como tem acontecido com vários genótipos de vírus da dengue. O aumento de infestação do Aedes aegypti no Brasil poderia também facilitar o espalhamento urbano do vírus da febre amarela que hoje reside em florestas no País", explicou.

 

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