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Saúde

Zika

Epidemia de zika muda rotina de cientistas

Mobilização da comunidade científica contra o vírus resulta em horas extras e leva laboratórios a mudarem linhas de pesquisa

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Giovana Girardi,
O Estado de S. Paulo

07 Março 2016 | 03h00

"Quais são as maiores dificuldades de pesquisa de zika no momento? Que o dia só tem 24 horas!" A declaração entre bem-humorada e aflita é do virologista Paolo Zanotto, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Ele conta que tem dormido em média 3 horas por noite desde que se observou a epidemia de microcefalia. "Na verdade todo mundo que está trabalhando com zika tem falado que também está assim. Saculejou todo mundo. A gente só ouve o pessoal contando que o marido tá reclamando, mulher tá reclamando. As prioridades mudaram", conta.

Para ele, a diferença na forma como os cientistas estão se mobilizando agora se dá porque a crise em si é inédita. "É só pensar na carga socioeconômica que pode gerar ter um número grande de crianças com microcefalia. Pode causar uma perturbação na demografia. É um aspecto devastador impactando a forma como a sociedade continua no tempo. É como destruir a semente das plantas. A perspectiva é pavorosa, acho que por isso a movimentação foi enorme", diz.

A mudança de rotina também impactou o laboratório de pesquisa do neurocientista Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Instituto D'Or de Pesquisa. Antes da epidemia, eles vinham trabalhando no desenvolvimento dos, agora famosos, mini-cérebros, para testar a evolução de outras doenças neuronais, como esquizofrenia. Diante da emergência, redirecionou os esforços e passou a analisar se o vírus zika seria capaz de infectar as células-tronco que formam o cérebro.

"Foi um mês de pesquisa, começamos a trabalhar no Carnaval e quando vimos que tínhamos um bom resultado, escrevemos em 48 horas um paper que foi submetido ao preprint (sistema em que a análise do estudo não é feita por pares – como a tradição científica determina –, e que vem sendo defendida em caso de uma emergência)", contou Stevens ao Estado na semana passada, ainda zonzo de sono. O trabalho mostrou que, sim, o zika infecta e destrói as células, o que pode ser um caminho para entender sua possível relação com a microcefalia.

Ele conta que esse esforço está sendo possível porque ainda tem uuma reserva de investimentos dos últimos 10 anos. "Foi um período em que conseguimos formar uma capacidade intelectual instalada e de equipamento. É uma mistura essencial para resposta rápida para uma crise, mas agora o futuro da pesquisa pode começar a ficar prejudicado", diz.

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