Paul Rogers| The New York Times
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Especialistas aconselham minimizar chance de nascimentos múltiplos na fertilização in vitro

Histórias de famílias que foram ampliadas por FIV tendem a ofuscar várias falhas do procedimento

Jane E. Brody, The New York Times

21 Outubro 2016 | 11h19

Em meados deste ano, Louise Brown, primeiro bebê de "proveta" do mundo, comemorou seu 38º aniversário como mãe de dois filhos concebidos naturalmente. Nas décadas que se passaram desde seu celebrado nascimento, as técnicas de fertilização in vitro (ou FIV), melhoraram tremendamente, resultando em cerca de cinco milhões de nascimentos em todo o mundo para casais incapazes de conceber sem auxílio.

As muitas histórias felizes sobre casais cujas famílias foram ampliadas por meio da FIV tendem a ofuscar as várias falhas, raramente mencionadas, dando a impressão de que o procedimento é muito mais eficaz do que realmente é.

Ao mesmo tempo, as técnicas geralmente utilizadas levaram a uma onda de nascimentos múltiplos – mais de 40% de todos os nascimentos com fertilização in vitro nos Estados Unidos são de gêmeos ou mais –, porque os médicos normalmente implantam dois ou mais embriões na esperança de obter uma gravidez bem-sucedida.

Como relatou o Dr. Allan Templeton, da Universidade de Aberdeen e do Hospital e Maternidade Aberdeen na Escócia, "registrou-se nos Estados Unidos, entre 1980 e 2001, o quádruplo do número de trigêmeos e nascimentos múltiplos, além de um aumento de 60% em nascimentos de gêmeos".

Vejamos 2013, ano mais recente para o qual há dados abrangentes disponíveis sobre nascimentos de FIV nos Estados Unidos. Mais de 60 mil bebês – cerca de 1,6% de todos os recém-nascidos daqui – foram concebidos através de fertilização in vitro, e 41,1% desses partos foram múltiplos, "diretamente atribuíveis à prática comum de transferir múltiplos embriões para o útero a fim de aumentar as taxas de gravidez", reportaram no periódico Fertility and Sterility a Dra. Abigail C. Mancuso e seus colegas da Faculdade de Medicina Carver da Universidade de Iowa e do Centro de Controle e Prevenção de Doenças.

Muitos podem se surpreender ao saber que Louise Brown nasceu após a transferência de um único embrião que havia sido fertilizado externamente e transferido para o útero da mãe – que, ao contrário da prática corrente, não havia sido tratada com drogas para induzir a produção de uma enorme quantidade de óvulos; apenas um foi usado.

Das três mulheres que conheço que engravidaram através de FIV desde 2000, duas tiveram gêmeos e uma teve trigêmeos (apesar de outras três amigas terem saído da experiência sem nada, esgotadas financeira e emocionalmente, após várias tentativas de fertilização in vitro). Estima-se que 36% dos nascimentos recentes de gêmeos e 77% dos nascimentos de trigêmeos ou mais nos Estados Unidos resultaram principalmente da gravidez assistida.

A criação de uma família instantânea de quatro ou mais pode parecer maravilhosa para casais que lutaram durante anos para conceber e para mulheres mais velhas, no final da idade fértil ideal, mas mesmo que gêmeos e trigêmeos pareçam "bonitinhos", gravidezes múltiplas podem ser repletas de complicações que comprometem seu êxito e a saúde da mãe e dos bebês.

A maioria das quase 500 clínicas de fertilidade aqui nos EUA é de instituições privadas que visam lucro, e como a FIV cresceu em popularidade, aquelas que tentam atrair pacientes através da divulgação de altas taxas de gravidez começaram a inserir vários embriões.

No entanto, o novo estudo sobre essas clínicas feito pela equipe de Abigail Mancuso revelou que a transferência de um único embrião para mulheres com menos de 38 anos resultou em uma acentuada redução na taxa de nascimentos múltiplos, mas nenhuma diminuição na taxa de natalidade.

Embora a transferência múltipla possa resultar em mais bebês nascidos vivos, muitos deles nascem prematuramente e passam semanas ou meses em uma UTI neonatal. Alguns morrem algumas horas ou dias após o nascimento e um número significativo de crianças sobreviventes acaba com cicatrizes físicas e problemas de desenvolvimento, como paralisia cerebral.

As mães também têm maior propensão de desenvolver complicações relacionadas à gravidez, como aborto, hipertensão arterial, diabetes gestacional, pré-eclâmpsia, parto prematuro, anormalidades da placenta, cesarianas e hospitalização prolongada.

Nos últimos anos, organizações profissionais preocupadas com a segurança da gestações e nascimentos múltiplos para as mães e os bebês vêm recomendando que somente um – e no máximo dois – embrião saudável seja implantado por vez. O benefício dessa conduta já é aparente: a taxa de gravidez de FIV que resultou em nascimentos múltiplos caiu para 22% do número de 2014, e 50% do de 2009.

Na mais recente orientação de agosto, o Grupo Americano de Obstetras e Ginecologistas afirmou que transferir "eletivamente" apenas um embrião por vez pode alcançar altas taxas de gravidez com menos risco para bebês e mães e "uma redução drástica na gravidez múltipla" (gêmeos ainda podem ocorrer quando um único embrião se divide no útero, como acontece com gêmeos idênticos concebidos naturalmente).

As novas orientações do grupo salientam que os custos da fertilização in vitro – muitas vezes na faixa de US$ 20 mil por ciclo – podem fazer a paciente solicitar a transferência de vários embriões, na esperança de começar uma família com um único ciclo de tratamento. Diferentemente de países com sistemas nacionais de saúde, nos Estados Unidos o governo e quase todas as seguradoras não cobrem o procedimento (exceto em alguns casos de veteranos feridos em serviço), o que basicamente limita sua disponibilidade apenas para pacientes ricos.

No entanto, a economia de seguros é avarenta e tola. Em 1998, pesquisadores suecos relataram que, para alcançar uma gravidez bem-sucedida, "a transferência de um embrião apresenta melhor custo benefício do que a transferência de dois, quando todos os custos associados com gestações múltiplas são levados em conta".

Além disso, se uma paciente tiver mais de um embrião saudável disponível para implante, os extras podem ser congelados e usados mais tarde a um custo muito menor, como informou Abigail em entrevista. Em um estudo no seu hospital, onde pacientes de FIV em potencial foram "corretamente orientadas" sobre os riscos de uma gravidez múltipla, um número maior delas optou pela transferência de um único embrião.

Infelizmente, aquelas que buscam sites de clínicas podem ser facilmente enganadas, como disse o Dr. Mark V. Sauer, que dirigiu a clínica de fertilização in vitro no Centro de Cuidados da Reprodução Feminina da Universidade de Columbia durante 21 anos.

"Elas podem facilmente se perder em meio à grande quantidade de dados disponíveis e ser incapazes de distinguir entre boas práticas médicas e um marketing simples", disse ele. Mais confiável é a informação recolhida pelo CDC, que lista 467 clínicas que, sob a lei federal, enfrentam graves sanções por dados incorretos. O mais recente é um relatório de 76 páginas com gráficos de fácil interpretação, o Relatório Nacional Conciso de Tecnologia de Reprodução Assistida de 2013.

Sauer disse: "Há um grande preocupação em fazer as pacientes engravidar e uma tendência a minimizar os riscos de uma gravidez de gêmeos. A taxa de gravidez de uma clínica não reflete necessariamente a taxa de bebês que nascem vivos. Todos consideramos que a gravidez de gêmeos é um resultado indesejável e que pode ser completamente evitado se médicos e pacientes concordarem que a transferência de um único embrião é a opção certa".

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