Nilton Fujuda/Estadão
Nilton Fujuda/Estadão

Estudo liga esportes de impacto a dano cerebral

Praticantes de boxe, MMA, futebol americano e rúgbi estão entre os mais propensos à perda de funções cognitivas

Felipe Frazão, de O Estado de S. Paulo,

08 Dezembro 2012 | 18h09

A antiga suspeita de que a prática de esportes violentos, que causam frequentes choques na cabeça, pode levar ao desenvolvimento de doenças neurológicas crônicas foi reforçada na semana passada por um amplo estudo que analisou o cérebro de 85 ex-atletas, amadores e profissionais, todos homens e já falecidos, de boxe, artes marciais mistas (MMA), rúgbi e futebol americano - modalidades de contato em que os praticantes sofrem pancadas na cabeça.

No estudo, publicado no jornal de neurologia Brain, pesquisadores da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, encontraram sinais de encefalopatia traumática crônica (ETC) em 68 cérebros (80% dos casos). Desses, 64 eram de atletas com histórico de choques cranianos repetidos. Havia 50 jogadores de futebol americano (33 com passagem pela NFL, a liga profissional dos EUA), 8 boxeadores, 5 jogadores de hóquei no gelo e 1 lutador de wrestling (luta de solo que envolve quedas).

A ETC costuma aparecer em atletas aposentados e causa degeneração de células do cérebro. São quatro níveis de consequências: cognitivas com demência (perda de atenção e memória), motoras (tremores, descoordenação, rigidez) e psiquiátricas (irritabilidade, euforia, agressividade, paranoia). O quadro e a intensidade dos sintomas variam de acordo com a quantidade de traumas e o tempo de carreira. Há casos de depressão e suicídio.

O estudo não determinou o porquê de outros atletas com histórico de choques no crânio não terem desenvolvido a ETC. Pesquisadores como os neurocirurgiões Paulo Louzada, da UFRJ, e Charles André, da Academia Brasileira de Neurologia, concordam que tais atletas têm "probabilidade maior" e podem antecipar quadros de demência- mais comuns na faixa dos 65 anos.

"Tomografia e ressonância magnética não detectam as alterações. É preciso fazer exames clínicos, neurológicos e cognitivos para apontar a probabilidade de o esportista estar com ETC", diz Renata Areza, neurologista da USP. "A comprovação só costuma ser feita com análise do cérebro doado após a morte."

Alertas. Pugilistas não têm informações claras sobre a ETC. É comum ouvir relatos de boxeadores "sonados", com "olhar perdido" e "dificuldade na fala".

A Confederação Brasileira de Boxe determina, em casos de nocaute, afastamento de 30 a 120 dias e submissão a teste neurológico e cognitivo. Os demais atletas devem fazer tomografia - incapaz de detectar a ETC. Bernardino Santi, médico da entidade, questiona a representatividade dos estudos sobre lesões cerebrais associadas ao esporte: "Não tem estatística que comprove que todos os atletas, ou a maioria deles, tem lesão de cérebro por causa do boxe. Depende da qualidade técnica do atleta".

Médica da Confederação Brasileira de MMA, Vanessa Resende estuda adotar no País, em dois anos, teste cognitivo para atletas que sofreram choque cerebral com perda de consciência. O ImpactTest, comercializado nos EUA, é usado por times de futebol americano. Lá, jogadores processaram a NFL por causa das doenças decorrentes das pancadas. Este ano, o órgão regulador do esporte criou um programa de segurança para crianças - o fundamento de manter a cabeça erguida, evitando choques.

"O uso de protetor de cabeça não é obrigatório", diz José Eduardo Moraes, preparador físico da Confederação Brasileira de Rugby.  

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