James Gathany/CDC/AP
James Gathany/CDC/AP

Estudo reforça ligação entre zika e síndrome de Guillain-Barré

Pesquisadores da Colômbia e dos Estados Unidos avaliaram 42 pacientes; 17 tiveram resultado positivo para zika em teste de urina e 18 apresentavam sinais imunológicos da infecção viral

Fábio de Castro, O Estado e S. Paulo

05 Outubro 2016 | 19h00

Um grupo de cientistas anunciou a mais forte evidência até agora de que a infecção pelo vírus da zika está mesmo ligada à síndrome de Guillain-Barré. A pesquisa foi feita por cientistas de seis hospitais da Colômbia, em parceria com pesquisadores da Johns Hopkins Medicine (EUA). O estudo foi publicado nesta quarta-feira, 5, na revista científica britânica The New England Journal of Medicine

Os dados epidemiológicos já apontavam para uma relação entre a síndrome e a zika, mas no novo estudo os cientistas apresentam evidências virais e imunológicas em um número substancial de pessoas com Guillain-Barré, confirmando a correlação.

A síndrome de Guillain-Barré é um distúrbio raro do sistema nervoso, que aparece dias após a infecção por vírus ou bactérias. Ela ocorre quando o próprio sistema imune do paciente ataca a bainha de mielina - espécie de "capa" que recobre as fibras nervosas -, fazendo com que os músculos se enfraqueçam e provocando dor, deficiências sensoriais e, em casos muito agudos, paralisia.

A síndrome é diagnosticada com testes neurológicos que medem a atividade e a velocidade de condução de impulsos nervosos. Os cientistas não sabem por que o problema ocorre em algumas pessoas e não em outras.

"No início da epidemia de zika na América do Sul, meus colegas da Colômbia entraram em contato, preocupados com o número cada vez maior de pacientes com complicações neurológicas em seus hospitais", disse um dos autores do estudo, Carlos Pardo, da Universidade Johns Hopkins.

Para o novo estudo, a equipe de Pardo desenvolveu estratégias, em parceria com os colegas colombianos, para avaliar pacientes com suspeita de problemas neurológicos associados à zika e forneceram ferramentas testes virais para amostras de sangue, fluido cerebroespinhal e urina de 68 pessoas com sintomas de Guillain-Barré.

Dos 68 pacientes inicialmente avaliados na Colômbia, estudos virais e imunológicos foram conduzidos em 42. Depois de algumas análises, os cientistas descobriram que a urina é o fluido mais confiável para o diagnóstico de zika em pacientes com Guillain-Barré.

Os testes revelaram resultados positivos para zika na urina de 17 pacientes. Outros 18 não tinham evidências do vírus na urina, mas apresentaram sinais imunológicos da infecção por zika, pela presença de anticorpos específicos para o vírus na corrente sanguínea, ou no líquido cerebroespinhal.

Os pacientes eram adultos, sendo 38 homens e 30 mulheres com média de idade de 47 anos. Quase todos os pacientes apresentaram dois ou mais sintomas clínicos de infecção por zika, que incluem febre, dor de cabeça, vermelhidão e conjuntivite.

Os pesquisadores dizem que quase metade dos participantes tinha queixas de sintomas neurológicos no período de até quatro dias após o aparecimento dos sintomas da zika. 

Os testes também revelaram que a maior parte dos 46 pacientes que tiveram a síndrome confirmada por testes de electrodiagnose neurológica apresentavam uma variante de Guillain-Barré que ataca a bainha de mielina. 

Segundo Pardo, o estudo é o maior já realizado para documentar o papel da infecção da zika no aumento das taxas de Guillain-Barré. Mas ele adverte que, embora o estudo demonstre associações biológicas e virais entre a infecção viral e a síndrome, ele não revela os mecanismos biológicos pelos quais o zika pode iniciar um ataque imunológico aos nervos.

 

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