Estudos negam que suplemento de cálcio aumente risco de doença cardiovascular

Composto indicado para osteoporose não provoca mais mortes por enfarte, ao contrário do que dizia pesquisa de 2008

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

19 Março 2014 | 17h28

PUNTA DEL ESTE - Estudos recentes reunidos na apresentação de um médico brasileiro no Congresso da Liga Panamericana de Associações de Reumatologia (Panlar) nesta terça-feira, 18, no Uruguai, mostram que o suplemento de cálcio, indicado para a prevenção e o tratamento da osteoporose, não aumenta o risco de doenças cardiovasculares, ao contrário do que mostrava um estudo neozelandês de 2008.

Na ocasião, os pesquisadores chegaram à conclusão de que pacientes que tomavam o suplemento da substância morriam mais de enfarte e de outras doenças cardiovasculares. "Desde então, os pacientes e os próprios médicos passaram a evitar o suplemento de cálcio e ficamos com menos opções no tratamento da osteoporose", explica Sebastião Cezar Radominski, chefe da especialidade de reumatologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

No congresso, o especialista brasileiro apresentou o resultado de estudos recentes que contestam essa tese. O mais novo deles, publicado neste mês no periódico Journal of Bone and Mineral Research, mostra que o risco aumentado de doenças cardiovasculares não foi observado em pacientes que tomavam o suplemento. "Na pesquisa, os médicos analisaram 700 mulheres que tomaram o cálcio e outras 700 que não utilizaram o suplemento. As taxas de mortalidade por doença cardiovascular foram similares. Aquele alarde feito pelo estudo neozelandês não foi confirmado", defende.

Outro estudo citado pelo médico, publicado em 2012 no American Journal of Nutrition, mostra que o suplemento de cálcio não aumenta a mortalidade se consumido na quantidade de até 1500 mg diárias. "Para uma pessoa acima de 50 anos com osteoporose que não consome cálcio na alimentação, a quantidade máxima recomendada é 1200 mg, portanto, dentro desses parâmetros, não haveria risco para o paciente", afirma ele.

Tratamento. Para o especialista, foi necessária a reunião e apresentação das pesquisas para que o tratamento da osteoporose não seja prejudicado. "Os pacientes ficavam com o tratamento limitado, porque o suplemento é necessário para prevenir fraturas nos ossos, mas também para que o remédio contra a osteoporose faça efeito. A medicação só é integralmente eficaz se os níveis de cálcio e vitamina D estão adequados no organismo", explica ele.

Radominski relembra, porém, que a indicação de suplemento de cálcio só deve ser feita para os pacientes que não conseguem atingir o nível indicado da substância na alimentação. "Não é tão difícil chegar aos 1200 mg diários. Um copo de leite tem 300 mg. Um pote de iogurte tem 400 mg. No entanto, há pacientes com osteoporose que têm alergia a componentes do leite ou não conseguem consumir a quantidade indicada. Nesses casos, o suplemento é necessário, mas a resistência ao consumo do composto estava alta. Esperamos que os novos estudos ponham um pouco de ordem na casa", diz. Além do leite e derivados, o cálcio também pode ser encontrado em folhas verdes.

* A repórter viajou a convite da AR: Juntos por Esta Causa | PANLAR - Liga Panamericana das Associações de Reumatologia

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