Estudos recentes têm mostrado riscos de terapias alternativas

Uma das pesquisas mostra que, ao buscar informações sobre câncer de pâncreas na internet, pacientes dão mais importância ao design dos sites que ao rigor científico

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

18 Setembro 2017 | 03h00

O caso do jornalista Marcelo Rezende, que abandonou a quimioterapia e adotou terapias alternativas para tratar um câncer de pancreas, ganhou repercussão nacional e levantou o debate sobre os riscos de trocar a quimioterapia por tratamentos sem base em evidências científicas, como dietas, exercícios, suplementos, vitaminas, massagens, ervas, acupuntura e meditação. O jornalista morreu no sábado e seu corpo foi enterrado no domingo no Cemitério Congonhas.

Embora afirmem que as terapias alternativas possam mesmo ajudar o paciente a enfrentar os severos efeitos colaterais da quimioterapia, os estudos e os especialistas consultados pelo Estado são unânimes: esses métodos podem ser usados de modo complementar, mas não têm eficácia comprovada contra o câncer e são incapazes de substituir o tratamento convencional.

Destacamos a seguir alguns estudos que mostram os riscos de terapias alternativas:

Internet preocupa. Em um estudo apresentado em outubro de 2016 no Congresso Anual do Colégio Americano de Cirurgiões, um grupo de cientistas investigou onde os pacientes de câncer de pâncreas buscam informações, na internet, a fim de decidir sobre os tratamentos. Eles concluíram que os principais critérios dos pacientes para escolher os sites em que confiam não tem nada a ver com rigor científico: são o layout e a facilidade de navagação do site. Ao recomendar para outros pacientes pacientes sites que ajudem a decidir o tratamento, a maioria das pessoas escolhem aqueles que têm mais vídeos e fotos. Ao mesmo tempo, quanto mais o site tem precisão e rigor nas informações médicas, menos eles são recomendados.

Afeta a quimioterapia. Em maio de 2016, um estudo feito por cientistas da Universidade Columbia (EUA) e publicado na revista Jama Oncology, da Academia Americana de Medicina, mostrou que o uso de medicina alternativa e complementar interfere na decisão de fazer a quimioterapia. Foi estudado um grupo de 685 mulheres com câncer de mama em estágio inicial. Entre as mulheres para as quais a quimioterapia havia sido indicada pelos médicos, as que estavam utilizando dietas e suplementos tiveram menor probabilidade de iniciar o tratamento quimioterápico.

Grande interesse dos pacientes. Em dezembro de 2015, um estudo publicado no The Journal of Alternative and Complementary Medicine revelou que é muito comum, entre pacientes de câncer, buscar por terapias integrativas e complementares, como suplementos, dietas e massagens. Mais de 95% dos pacientes mostraram interesse em pelo menos uma dessas terapias alternativas, quando eram oferecidas pelos hospitais. As terapias mais usadas foram vitaminas e suplementos (67%), dietas (42%) e massagens (39%).

Comum entre idosos. Em agosto de 2015, um estudo publicado no Journal of Geriatric Oncology revelou um alto uso de medicina alternativa em pacientes idosos de câncer. Muitos usam terapias que podem interferir no tratamento convencional. Segundo os autores, da Universidade Thomas Jefferson (EUA), apesar do marketing que dá um rótulo de "natural" a algumas terapias alternativas, elas podem reagir quimicamente e biologicamente com outros medicamentos. O estudo revelou que 26% dos pacientes idosos usam essas terapias - principalmente as mulheres com mais de 80 anos. Do grupo que usa terapias alternativas, 68% tem mais de 80 anos.

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