Agência americana aprova testes com mosquitos transgênicos na Flórida

FDA concluiu que a liberação do 'Aedes aegypti' geneticamente modificado, desenvolvido pela empresa Oxitec, não trará impacto significativo para o meio ambiente

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

05 Agosto 2016 | 16h18

A agência reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), anunciou nesta sexta-feira, 5, a autorização para o início dos testes, na Flórida, com mosquitos transgênicos da espécie Aedes aegypti desenvolvidos pela empresa britânica Oxitec.

No dia 29 de julho, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos havia anunciado a confirmação dos primeiros casos de transmissão local do vírus da zika em Miami, na Flórida. Os testes com os mosquitos transgênicos aprovados pela FDA serão realizados a poucos quilômetros dali, no Distrito de Controle de Mosquitos de Flórida Keys.

Em documento oficial publicado nesta sexta, a FDA concluiu que os mosquitos transgênicos "não trarão impacto significativo para o meio ambiente". O objetivo dos testes, segundo a agência, é "determinar se a liberação dos mosquitos da Oxitec será capaz de suprimir a população local de Aedes aegypti". Só após os testes a agência definirá se os mosquitos serão liberados para uso comercial.

 

 

Os mosquitos produzidos pela Oxitec são modificados geneticamente para que tenham uma prole estéril. Todos os mosquitos utilizados são machos - que não se alimentam de sangue e por isso não transmitem vírus. Quando liberado no ambiente, o macho transgênico fecunda as fêmeas que produzem ovos infertéis, levando à redução da população de mosquitos.

A tecnologia da Oxitec já foi testada em pequena escala no Brasil - em Piracicaba (SP) -, no Panamá e nas Ilhas Cayman. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no entanto, informou que ainda não liberou os testes oficiais. Os testes feitos no interior paulista foram realizados antes de a agência decidir, em abril, que seria preciso regulamentar o uso do mosquito transgênico. 

Segundo a Anvisa, com a decisão tomada em abril, foi definido que será preciso fazer um registro temporário dos mosquitos transgênicos para realizar testes em campo a fim de determinar se a tecnologia funciona ou não. A Anvisa agora está elaborando uma norma para a liberação do registro temporário, que ainda passará por consultas públicas. A agência informou que as regras deverão divulgadas até o fim de agosto.

O diretor da Oxitec no Brasil, Glen Slade, comemorou a decisão da FDA. "A aprovação da FDA para o uso do mosquito na Flórida é muito bem vinda e mostrou mais uma vez que uma análise profunda de um órgão competente conclui que nossa ferramenta é muito segura e que não tem nenhum impacto significativo no meio ambiente. Foi exatamente o que esperávamos", disse Slade ao Estado.

Segundo Slade, a autorização da FDA poderá acelerar o processo de aprovação da tecnologia no Brasil e em outros países. "Pela importância mundial da FDA, há uma possibilidade de que a decisão tenha repercussão internacional e acelere o uso da tecnologia nas Américas, incluindo o Caribe. Se tudo der certo com os ensaios na Flórida, teremos os dados necessários para dar o próximo passo, que é o registro comercial", declarou Slade.  

Slade afirmou que o número de mosquitos que podem ser liberados em Flórida Keys será determinado durante o teste. "Cada pote contém cerca de mil mosquitos e o número de potes e pontos de liberação são ajustados durante o teste, conforme as condições locais. O planejamento é realizar três liberações semanais", disse.

Nas Ilhas Cayman, segundo Slade, 3,3 milhões de mosquitos foram liberados durante seis meses de testes, o que resultou na supressão do Aedes aegypti selvagem em mais de 90%. "No Panamá, numa área com tamanho similar, funcionou com a liberação de menos de 5 mil mosquitos por pessoa durante seis meses para chegar a uma supressão também acima de 90%", declarou.

 

 

 

Em Piracicaba, segundo Slade, o mosquito transgênico é utilizado desde março de 2015, em testes realizados antes da Anvisa determinar a necessidade de registro para a tecnologia. De acordo com ele, após dez meses do projeto, a tecnologia conseguiu reduzir o número de larvas do Aedes aegypti selvagem em 82% na área tratada com o mosquito. 

Segundo dados da Vigilância Epidemiológica do município, a área também apresentou redução significativa no número de casos de dengue. Na passagem de 2015 para 2016, o número de casos da doença no bairro tratado teve redução de 91% na comparação com os números registrados um ano antes. Foram confirmados 12 casos da doença no período mais recente contra 133 registros no período anterior.

 

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