Marcos Mendes/AE
Marcos Mendes/AE

Excesso de açúcar pode levar à depressão

Alto consumo de doces eleva ocorrência de problemas mentais em 23%, diz estudo

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

27 Julho 2017 | 22h24

Um novo estudo mostrou que as dietas com alto teor de açúcar, ligadas ao consumo de refrigerantes e doces, podem estar associadas a um maior risco de problemas mentais comuns, como ansiedade e depressão leve. A pesquisa foi feita com homens. 

O trabalho, liderado por Anika Knüppel, do University College London (Reino Unido), foi publicada nesta quinta-feira, 27, na revista Scientific Reports. “Os resultados mostram efeito adverso de longo prazo na saúde mental dos homens, ligado ao excessivo consumo de açúcar proveniente de alimentos e bebidas doces”, disse Anika ao Estado.

Altos níveis de consumo de açúcar já haviam sido relacionados a uma prevalência mais alta de depressão em diversos estudos anteriores. No entanto, até agora, cientistas não sabiam se a ocorrência do problema mental desencadeava um consumo maior de açúcar, ou se os doces é que levavam à depressão.

Para descobrir se a voracidade por açúcar é causa ou consequência dos problemas mentais, os cientistas analisaram os dados de 8.087 britânicos com idades entre 39 e 83 anos, coletados por 22 anos para um estudo de larga escala. As descobertas foram feitas com base em questionários sobre a dieta e a saúde mental de participantes. 

Para um terço dos homens - aqueles com maior consumo de açúcar -, houve alta de 23% da ocorrência de problemas mentais após cinco anos, independentemente de obesidade, comportamentos relacionados à saúde, do restante da dieta e de fatores sociodemográficos.

O consumo de açúcar foi medido por 15 itens que incluem refrigerantes, sucos industrializados, doces, bolos, biscoitos e açúcar adicionado ao café. Para homens, foi considerado alto consumo uma quantidade maior que 67 gramas por dia e, para mulheres, acima de 50. A Organização Mundial da Saúde recomenda uso máximo de 50 gramas por dia e aponta que o ideal é não passar dos 25.

Gênero. Embora o estudo seja com homens e mulheres, a associação entre açúcar e doenças mentais apareceu apenas no grupo masculino. “Esse resultado foi bastante inesperado e não conseguimos encontrar boa explicação para isso. Mas não é impossível que os resultados também se apliquem a mulheres. Estudo americano em 2015, exclusivamente com mulheres, também encontrou associação entre alto consumo de açúcar e depressão”, disse Anika. 

Segundo ela, há várias explicações biológicas plausíveis para a associação. A principal delas é que o açúcar reduz os níveis do chamado fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF, na sigla em inglês), que ajuda no desenvolvimento de tecidos cerebrais. “O BDNF tem sido discutido como um facilitador da atrofia do hipocampo em casos de depressão”, disse Anika.

Para Paulo Mattos, neurocientista do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, é preciso pesquisar mais para uma conclusão definitiva. “O estudo se refere a quadros de ansiedade e depressão bastante leves e gradativos. Mesmo em um estudo que abrange mais de 20 anos, é difícil dizer se antes desse recorte as pessoas já tinham sintomas.”

Vício. Açúcar e ansiedade estão na vida do empresário Mardone Paz, de 38 anos. Ele não sabe se a ansiedade, no seu caso, está ligada ao consumo de doces, mas diz correr a um café ou padaria sempre que bate o nervosismo. “O doce me acalma. Como com frequência mesmo sabendo que não faz bem à saúde, porque gosto muito.”

Por pressão da família, ele passou a se preocupar mais com a alimentação, mas não abandonou o açúcar. “Sei que é preciso, mas não consigo.”/ COLABOROU JOSÉ MARIA TOMAZELA

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