Expectativa de vida de agentes penitenciários em SP é de 45 anos

Péssima infraestrutura, extensa jornada e estresse são responsáveis, diz estudo da USP

Agência USP

23 Novembro 2010 | 21h27

SÃO PAULO - Um estudo do Instituto de Psicologia da USP revela que as péssimas condições de infraestrutura das penitenciárias brasileiras, a extensa jornada de trabalho e o estresse laboral são fatores responsáveis pela baixa expectativa de vida dos Agentes de Segurança Penitenciária (ASP).

Segundo o psicólogo Arlindo da Silva Lourenço, autor de uma tese de doutorado sobre o tema, “o trabalho em locais insalubres como as prisões, e as condições de trabalho bastante precarizadas dos agentes são estressantes, desorganizadoras e afetam sua saúde física e psicológica”.

Lourenço trabalha como psicólogo em penitenciárias masculinas do Estado de São Paulo e, entre 2000 e 2002, foi um dos responsáveis, na Escola de Administração Penitenciária (EAP), pela implementação de uma Política de Saúde dos Trabalhadores, que acompanhou os agentes vítimas de rebeliões.

De acordo com o pesquisador, muitos profissionais sofrem pressões e ameaças constantes que prejudicam sua saúde psicológica. “Cerca de 10% se afastam de suas funções por motivos de saúde, geralmente desordens psicológicas e psiquiátricas”, revela.

Outro dado preocupante é a média de expectativa de vida dos agentes. “Muitos morrem novos, entre 40 e 45 anos (alguns muito mais novos), por uma série de problemas de saúde contraídos durante o exercício da profissão, como diabete, hipertensão, ganho de peso, estresse e depressão”, enumera Lourenço.

De acordo com o levantamento, esses índices são reflexo da alta jornada de trabalho (12 horas direto e 36 de repouso), das más condições das penitenciárias do País e do ressentimento dos agentes em relação à dificuldade de modificar o local em que atuam.

Condições de trabalho

A realidade precária e carente de equipamentos básicos do sistema prisional brasileiro foi apontada como fator de desorganização psicológica dos profissionais. “As penitenciárias são repletas de ambientes úmidos e iluminação insuficiente, de cadeiras sem encosto ou assento e janelas de banheiro quebradas, elementos que comprometem o bem-estar e a privacidade de agentes e sentenciados", diz Lourenço.

Com isso, o "improvisado", que é algo corriqueiro entre os detentos, é assimilado pelos agentes. “O cafezinho de muitos trabalhadores é preparado em latas de sardinha equipadas com resistências de chuveiro que funcionam como um fogão elétrico”, exemplifica.

Para o psicólogo, essas condições deterioram e empobrecem o indivíduo, além de influenciar na capacidade de ressocialização do detento. “Como dizer para o preso que a vida pode ser diferente, aprisionando-o em um ambiente insalubre, empobrecido, de miséria e desgraça?”, questiona o pesquisador.

Além disso, segundo ele, “os recursos atuais não permitem a execução do trabalho do agente penitenciário com decência, o que implica um não-reconhecimento de sentido na profissão e, por consequência, um não-reconhecimento de sua função social e de sua existência”.

A resolução dos detalhes estruturais das instalações, tornando-as adequadas para o convívio, o trabalho e a permanência humana, já representaria uma grande diferença na qualidade de atuação dos agentes e na reabilitação dos detentos, na opinião de Lourenço. Contudo, essa situação pouco se modificará enquanto os profissionais não perceberem a influência desses fatores em sua qualidade de vida.

“A situação tende a permanecer como está, pois os agentes lutam e reivindicam, principalmente, melhorias salariais. Ao mesmo tempo, as penitenciárias estão longe de ser uma política pública prioritária para o Estado, como pudemos ver nas manchetes recentes que mostraram presos cumprindo penas em contêineres no Espírito Santo, e na rebelião ocorrida há alguns dias no Maranhão, em que 18 foram mortos. O motivo do motim: a superlotação da unidade penal”, conclui o psicólogo.

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