Explica, mas não justifica

Por que o comportamento alheio se explicaria pela personalidade e o nosso pelas circunstâncias?

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2017 | 05h00

Há tempos eu não via a psiquiatria ser tão intensamente acionada na tentativa – nem sempre frutífera – de entender o que está acontecendo no mundo. Casos como o do homem que ejaculava em mulheres nos ônibus, do atirador que aterrorizou uma multidão em Las Vegas, do homem que pôs fogo na creche, do estuprador que pediu tratamento psicológico e agora do adolescente que matou colegas na escola em Goiânia desafiam nossa compreensão. São notícias unidas não por algo que tenham em comum, mas pelo que lhes falta a todas: explicações.

Quando avaliamos a forma como os outros se comportam, temos a tendência de atribuir as ações às características das pessoas – sua personalidade e disposições explicariam por que fazem o que fazem. Já ao olhar para nós mesmos somos mais condescendentes – atribuímos nossas atitudes às circunstâncias, ao momento, não as tomamos como reflexo de quem somos. Achamos que é mal educado o sujeito que não nos dá bom dia, mas se deixamos de cumprimentar alguém dizemos que foi por estarmos distraídos, não por sermos mal-educados. 

Colocando assim fica claro que a conta não fecha: por que o comportamento alheio se explicaria pela personalidade e o nosso pelas circunstâncias? Evidente que se trata de um erro, conhecido como erro fundamental de atribuição. Sobretudo quando o comportamento é pouco usual, seus aspectos negativos são sempre atribuídos aos traços individuais e não ao contexto. 

Daí que chegamos à sobrecarga de trabalho que se abate sobre a psiquiatria diante das notícias nesses tempos conturbados. Além de reunirem as características acima – afinal, se algo não é inusitado e negativo raramente vira notícia – esses casos desafiam as pessoas a encontrar explicações no seu leque de motivos comuns. Ao sabermos de alguém que atropelou uma senhora idosa logo atribuímos irresponsabilidade ao motorista (ou imprudência à pedestre). Se lemos que um professor bateu num aluno, rapidamente acreditamos que se trata de um profissional mal preparado (ou de um estudante marginal). 

Mas quando um sujeito se imola no meio de uma creche causando um incêndio que mata crianças, qual explicação possível? Se um jovem aparentemente feliz e saudável põe fim à própria vida, a quais características dele podemos atribuir ato tão extremo? No momento em que um estuprador é reconhecido por mais de vinte vítimas e diz que não sabe o que está passando em sua cabeça e que deseja se tratar, de onde sacar um motivo para seus atos?

O ponto é que cometemos o mesmo erro fundamental de atribuição nesses casos. Afinal de contas, por mais que sejam atitudes exóticas, bizarras ou mesmo criminosas, não parece provável que elas fujam à regra geral do comportamento humano a ponto de serem atribuíveis exclusivamente à essência dos seus autores, descartando a influência das circunstâncias. Mas como a primeira coisa de que temos ciência é o que eles fizeram, as características que automaticamente lhes atribuímos – como causa de seus atos – ofuscam as informações posteriores que recebemos sobre suas vidas e circunstâncias. As pesquisas mostram que em casos corriqueiros isso já acontece, imagine nesses tão emocionalmente carregados.

Existe, porém, um elemento a mais. Chamamos o psiquiatra para explicar as pessoas em vez de avaliarmos o contexto não apenas por uma tendência psicológica, mas porque não queremos mesmo levar em conta as circunstâncias. Temos medo de que se compreendermos a situação como um todo acabaremos por também compreender o autor e, com isso, perdoá-lo. E está aí algo que não podemos admitir. Trememos diante da possibilidade de Madame Stäel estar certa quando disse que “conhecer tudo é perdoar tudo”.

Mas não há o que temer. Nós devemos sim conhecer esses indivíduos, mas compreender a situação pode ser ainda mais importante. Não para isentar ninguém de suas responsabilidades, pois nem tudo que explica, justifica. Mas se quisermos atuar preventivamente de alguma maneira, mais eficaz do que afastar da sociedade esses comportamentos de risco é afastar da sociedade os riscos que provocam esses comportamentos.

* É psiquiatra

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