Clarissa Thomé/Estadão
Clarissa Thomé/Estadão

Falta de remédios interrompe metade dos tratamentos de câncer no Rio

Levantamento do Cremerj também aponta que pacientes encaminhados a hospitais federais no Estado têm menos de 30% de chance de sobreviver

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

14 Março 2017 | 13h24
Atualizado 14 Março 2017 | 22h18

RIO - Metade dos tratamentos contra o câncer feitos no Rio de Janeiro foi interrompida por falta de quimioterápicos. Fiscalização do Conselho Regional de Medicina (Cremerj) em 19 unidades de tratamento aponta para assistência oncológica precária na capital. Em 74% das instituições não há serviço de radioterapia e 90% não oferecem exames imuno-histoquímicos, que identificam características moleculares da doença e orientam o melhor tratamento. Em alguns casos, o início do tratamento demora um ano.

“O levantamento do Cremerj mostra que, quando o paciente é referenciado para o Instituto Nacional do Câncer, provavelmente ele estará salvo. Se for encaminhado para alguns hospitais federais, sua chance de sobrevida é de menos de 30%”, afirmou o defensor público da União Daniel de Macedo.

Ele encaminhou ofícios pedindo que o Ministério Público Federal abra inquérito para investigar suposta improbidade administrativa nos hospitais Federais de Bonsucesso (HFB), Andaraí e Cardoso Fontes. 

O Cremerj fiscalizou, entre outubro e novembro de 2016, hospitais federais, universitários, estaduais e um filantrópico. Segundo o trabalho, 46% dos pacientes chegaram ao hospital com resultados de exames que confirmavam o diagnóstico realizados mais de seis meses antes da internação. Já 59% dos pacientes apresentavam estágio avançado da doença. Nos almoxarifados, havia estoque zerado de quimioterápicos.

‘Câncer é um rato’. A modelista Letícia Lázaro, de 56 anos, tem enfrentado um calvário. Diagnosticada com câncer de mama em 2012, ela iniciou o tratamento apenas no ano seguinte. E parou a quimioterapia duas vezes, por falta de medicamento. Chegou a fazer os últimos dois ciclos no mesmo mês, sem o intervalo de 21 dias entre um e outro. 

Como o quimioterápico já havia faltado, a médica achou melhor garantir o tratamento enquanto havia a medicação. Em 2016, a modelista ficou sete meses sem o remédio que impede a recidiva (recaída). “O câncer é um rato. Está o tempo todo roendo a gente por dentro. Não temos tempo para perder.” 

O presidente do Cremerj, Nelson Nahon, disse que, em média, um paciente inicia o tratamento entre dez meses e um ano após o diagnóstico. “Esses dados comprovam que a lei federal de 2012 (que prevê início do tratamento 60 dias após o diagnóstico) não está sendo cumprida. O paciente chega com exames feitos há mais de seis meses e tem de repetir os exames. Estamos perdendo o tempo ideal para iniciar o tratamento. Isso diminui a chance de cura.”

Quase um terço dos hospitais (27%) não tem tomógrafos, apesar de as instituições serem de alta complexidade. A espera por esse exame chega a 12 semanas, além de duas para ter o resultado. No caso da ressonância magnética, a situação é pior: 79% não têm o equipamento, e a marcação pode levar dez semanas, além de três até o laudo.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que os seis hospitais federais ampliaram entre 10% a 25% o atendimento a pacientes oncológicos de 2015 e 2016. Reconhece, porém, que o HFB tem situação mais complexa. O Inca passou a receber os pacientes em tratamento quimioterápico do HFB, disse a pasta. Além do atendimento próprio, foram repassados R$ 7,1 bilhões para a Saúde do Estado e do município em 2016.

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