Falta médico ao lado do ‘PS da Copa’

Unidade referência no Mundial é inaugurada perto de hospital com déficit de profissionais

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

06 Junho 2014 | 03h00

SÃO PAULO - Ao mesmo tempo em que a Secretaria de Estado da Saúde inaugurava o novo pronto-socorro do Hospital Santa Marcelina de Itaquera, na zona leste de São Paulo, para ser referência de atendimento durante a Copa do Mundo, os pacientes que procuravam o pronto-socorro antigo, a menos de 50 metros da nova unidade, não encontravam médicos de plantão.

O evento de inauguração da nova unidade ocorreu na manhã desta quinta-feira, 5, e teve a presença do secretário de Estado da Saúde, David Uip. A pasta comandada por ele investiu R$ 9 milhões na criação do novo PS, que fica a cerca de dez minutos da Arena Corinthians, palco do jogo de abertura do Mundial.

No prédio da frente, porém, onde funciona o pronto-socorro antigo, só havia um tipo de especialista disponível: ginecologista/obstetra. A unidade não tinha nenhum clínico-geral, pediatra, cirurgião ou ortopedista. A informação foi confirmada ao Estado pelos funcionários responsáveis por abrir a ficha dos pacientes que buscavam atendimento na unidade.

“A saúde pública é assim mesmo”, dizia um dos funcionários. Aos pacientes menos graves, ele recomendava que procurassem a AMA (Assistência Médica Ambulatorial) mais próxima. Aos demais, pedia que fossem conversar com funcionários da triagem para que eles checassem se era possível fazer o atendimento. Nesses casos, os médicos que atendem os pacientes internados no hospital desceriam para o pronto-socorro para os atendimentos de emergência.

A costureira Jane Silva, de 39 anos, só conseguiu que o filho de 16 anos fosse atendido por um cirurgião após duas horas, ao dizer aos funcionários do hospital que chamaria a polícia. “Meu filho foi operado da Doença de Crohn (inflamação no sistema gastrointestinal) em abril e os médicos disseram que, se ele tivesse qualquer sangramento, eu deveria voltar ao pronto-socorro, mas cheguei aqui e eles me disseram que não tinha cirurgião”, diz ela. O filho, Juliano, apresentava sangramento havia três dias.

O motorista Francisco Ferreira, de 49 anos, não teve a mesma sorte ao buscar um ortopedista no local, por volta das 12h desta quinta. Em fevereiro, ele sofreu um acidente de trabalho, fraturou a perna e teve um fixador metálico externo colocado no membro esquerdo.

Há dois dias, passou a apresentar febre. Nesta quinta, foi levado de cadeira de rodas pela família ao pronto-socorro para checar se o local da cirurgia poderia estar infeccionado. “Mas o atendente disse que não tem médico agora. Falou que podemos esperar até as 14h porque vai chegar um médico, mas que não é garantia que ele vai me atender, porque já tem muita gente esperando”, conta a dona de casa Rosa Rodrigues, de 50 anos, mulher de Ferreira.

Problemas. A Secretaria de Estado da Saúde disse que o Hospital Santa Marcelina é filantrópico e que a responsabilidade pela gestão da unidade e contratação de médicos é da entidade Congregação das Irmãs de Santa Marcelina.

O hospital afirmou que sofre com problemas de falta de médicos “como outras instituições de saúde de São Paulo”. “Em nosso caso específico, temos o problema da localização e base salarial, que dificulta ainda mais a captação de profissionais”, afirmou a assessoria do Santa Marcelina, em nota.

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