FDA pede menos antibióticos em animais para mantê-los eficazes em humanos

Remédios deveriam ser usados somente para proteger a saúde animal, e não para ajudá-los a crescer

NYT

05 Julho 2010 | 15h36

WASHINGTON - A agência americana Food and Drug Administration (FDA) recomendou aos agricultores que parem de dar antibióticos para bovinos, aves, porcos e outros animais a fim de estimular o crescimento deles. A preocupação da FDA é que o uso excessivo de drogas esteja ajudando a criar bactérias perigosas em humanos que não respondem a tratamento médico e põem vidas em risco.

Joshua Sharfstein, comissário adjunto da FDA, disse que os antibióticos deveriam ser usados somente para proteger a saúde de um animal e não para ajudá-lo a crescer ou melhorar a forma como digere sua ração.

"Este é um problema de saúde pública urgente", disse Sharfstein durante uma conferência com repórteres por telefone. "Para preservar a eficácia (dos antibióticos), nós simplesmente devemos usá-los da forma mais racional possível."

A FDA emitiu um projeto de orientação sobre o assunto, e o público tem 60 dias para comentá-lo. Sharfstein disse que a orientação foi um primeiro passo, e a agência vai emitir novas regras se a indústria não estiver voluntariamente de acordo.

"Nós temos os mecanismos reguladores, e a indústria sabe disso" afirmou. "Também pensamos que as coisas podem ser feitas de forma voluntária. Não estamos algemados a uma estratégia particular, mas não vamos excluir qualquer coisa que podemos fazer para estabelecer essas importantes metas para a saúde pública", completou Sharfstein.

A FDA tem tentado limitar o uso de antibióticos na agricultura desde 1977, mas seus esforços têm entrado em colapso repetidamente, em face da oposição do lobby da indústria farmacêutica e agrícola.

Mas a evidência crescente de uma crise global de bactérias resistentes a antibióticos tem impulsionado o governo a agir, disse Brad Spellberg, especialista em doenças infecciosas e autor do livro "Rising Plague" (Epidemia Crescente, em tradução livre), sobre a resistência aos antibióticos.

"Estamos em uma era onde a resistência ao antibiótico está fora de controle, e estamos ficando sem drogas, pois medicamentos novos não estão sendo desenvolvidos. Não podemos continuar no caminho em que estamos'', afirmou Spellberg, que leciona na David Geffen School of Medicine da University da Califórnia, em Los Angeles.

A União Europeia proibiu em 2006 o uso de antibióticos e medicamentos afins para promover o crescimento de animais.

Agricultores americanos dão rotineiramente antibióticos para animais produtores de alimentos (como leite e carne) para tratar doenças, prevenir infecções e favorecer o crescimento. As drogas são muitas vezes adicionados à água potável e alimentos. A União dos Cientistas Preocupados estima que 70% de antibióticos e medicamentos afins usados nos Estados Unidos são dados a animais.

Muitos dos remédios administrados aos animais são considerados pela FDA extremamente importantes na medicina humana, como a penicilina, a tetraciclina e sulfonamidas. Nos últimos anos, especialistas em saúde pública têm afirmado que houve um aumento alarmante no número de bactérias que se tornaram resistentes aos antibióticos, levando a doenças graves e incuráveis em seres humanos.

As bactérias podem se transferir de animais para os seres humanos de várias maneiras: em alimentos, por meio da exploração dos trabalhadores, do ar, da água e do solo contaminado por chorume.

O Instituto de Saúde Animal, que representa as empresas que produzem medicamentos para animais, disse que concorda que os antibióticos sejam usados de forma mais criteriosa. Mas os grupos de ambos os lados criticam os esforços da FDA, que precisa de mais provas para ditar mudanças nas práticas de longa data em relação à administração de antibióticos para os animais.

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