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Febre amarela: macacos a perigo

A doença é ruim para as pessoas; para os primatas selvagens, pode ser catastrófica

The Economist

20 Março 2017 | 10h52

SANTA MARIA DE JEQUITIBÁ - "Não sobrou nenhum", lamenta Valmir Rossman, lançando um olhar para a mata que cerca sua propriedade, no município de Santa Maria de Jequitibá, no interior do Espírito Santo. Rossman é cafeicultor. Até pouco tempo, em sua fazenda era possível ouvir os gritos com que os bugios da região demarcam seu território, tentando afugentar eventuais intrusos.

De meados de fevereiro para cá, porém, o agricultor não ouviu nem viu mais nenhum desses macacos - com exceção de dois que encontrou mortos no meio do cafezal, em um ponto em que a plantação faz divisa com um trecho de Mata Atlântica.

A população de bugios do Espírito Santo está sendo dizimada. Os espécimes encontrados por Rossman são apenas dois dos 900 bugios mortos que foram localizados este ano pelo primatólogo Sérgio Mendes, professor de zoologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), e sua equipe. Em anos normais, a expectativa de Mendes seria de que, no mesmo período, seus assistentes encontrassem menos de dez animais mortos. No Estado vizinho de Minas Gerais, observa-se fenômeno semelhante. Análises realizadas nos restos mortais dos espécimes encontrados indicam que o responsável pelo morticínio é a febre amarela.

As pessoas tendem a ver a febre amarela como uma doença que afeta apenas os seres humanos, mas o fato é que essa infecção viral transmitida por mosquitos também pode vitimar outros primatas - e os macacos do Novo Mundo são particularmente suscetíveis a ela. É que, até os europeus descobrirem a América, a febre amarela permaneceu confinada no Velho Mundo. Por lá, os animais coevoluíram com o vírus que causa a doença, desenvolvendo, assim, certo grau de imunidade inata. Seus irmãos do Novo Mundo não tiveram essa oportunidade. O surto atualmente em curso no Espírito Santo, em Minas Gerais e algumas áreas dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro vem fazendo vítimas entre humanos e macacos. Mas, pelo menos por ora, são os macacos que sofrem mais.

A picada da realidade. A ideia de que os animais silvestres atuam como reservatórios de patógenos, que então infectam os humanos, é conhecida, mas não muito bem estudada. O surto de febre amarela que atinge o Brasil é uma oportunidade de corrigir isso, permitindo compreender melhor esse tráfego patogênico de mão dupla e também o fato de que surtos epidêmicos podem afetar outras espécies além do Homo sapiens.

Do ponto de vista dos seres humanos, a febre amarela está sob controle no Brasil. A doença faz menos de dez vítimas fatais por ano, número bastante baixo se comparado com o da dengue, que anualmente mata entre 300 e 800 brasileiros. Depois de uma grande campanha de vacinação realizada na década de 1930, o último caso de febre amarela urbana registrada no País aconteceu em 1942.

O ciclo urbano é a forma de transmissão mais comum no Velho Mundo, envolvendo o mosquito Aedes aegypti, que também é responsável pela transmissão de dengue, zika e chikungunya. No ciclo urbano da febre amarela, o Aedes pica um ser humano infectado e então transmite o vírus para outra pessoa. Trata-se, essencialmente, de uma transmissão entre humanos.

Até onde se sabe, todos os casos registrados no Brasil de 1942 em diante percorreram o "ciclo silvestre", que envolve mosquitos de dois outros gêneros, o Haemagogus e o Sabethes, nativos das Américas. Esses mosquitos costumam passar a maior parte de sua existência no alto das árvores, alimentando-se do sangue de macacos. Às vezes, porém, picam um ser humano - por exemplo, quando, em uma ação de desmatamento, essas árvores são derrubadas. Caso o mosquito seja um vetor e sua vítima não tenha sido vacinada, o vírus será transmitido. Mas, como o Haemagogus e o Sabethes, diferentemente do Aedes, não costumam ser encontrados junto a aglomerações humanas, e os programas de vacinação se concentram em áreas onde a febre amarela silvestre é um risco, esses mosquitos raramente transmitem o vírus de uma pessoa a outra.

Por outro lado, os indivíduos infectados podem levar o vírus para outras regiões do País, que, por estarem livres da doença, não são alvos de campanhas de vacinação. Em 2000, por exemplo, cepas de vírus presentes em um surto que atingiu o Estado do Pará foram encontradas a 2 mil quilômetros de distância. Segundo Pedro Vasconcelos, do Instituto Evandro Chagas, de Belém, o vírus não teria como ter percorrido tal distância sem o auxílio de meios de transporte mecanizados.

Ocasionalmente, a febre amarela chega dessa maneira a áreas com populações de macacos sem exposição recente ao vírus e, portanto, sem mecanismos de defesa. As consequências podem ser devastadoras. Calcula-se que, há nove anos, 2 mil macacos morreram nas proximidades da fronteira do Brasil com o Uruguai. É possível que, em 2000, número semelhante de animais tenha morrido na Região Centro-Oeste, uma das áreas atingidas pelo surto que eclodiu no Pará.

A atual irrupção de febre amarela no Espírito Santo e em Minas parece mais violenta. Segundo Mendes, a doença é capaz de eliminar entre 80% e 90% de uma população de macacos sem imunidade - como é o caso dos animais que vivem nesses dois Estados. Pelos cálculos do acadêmico, o número de animais mortos pode chegar a dezenas de milhares. E, desta vez, há pessoas morrendo também. De dezembro até agora, foram registrados 371 casos entre humanos, um terço dos quais resultou em morte da pessoa infectada. A razão dessa elevada taxa de mortalidade é semelhante à que explica o grande número de vítimas fatais entre os macacos: a falta de uma resposta imunológica apropriada. A ausência do ciclo urbano nessas áreas levou ao abandono das campanhas locais de vacinação.

Agora, porém, as autoridades sanitárias entraram em alerta. Despacharam lotes de vacinas para as regiões afetadas com rapidez louvável. Isso deve impedir o ressurgimento do ciclo urbano de transmissão. Os entomologistas da Ufes também estão instalando armadilhas para capturar mosquitos, a fim de identificar quais espécies estão servindo de vetor para o vírus, se as silvestres ou o Aedes. Os mosquitos capturados são enviados para o Instituto Evandro Chagas, cujos técnicos também se encarregam da identificação das cepas dos vírus hospedados.

Por ora, os pesquisadores desconfiam que o vírus responsável pelo surto é originário de populações de macacos da Amazônia ou do Cerrado. Se a suspeita se confirmar, significa que se trata de um caso clássico de doença que, transbordando de seu reservatório animal, atinge os seres humanos - um reservatório do qual não há como erradicar a doença.

Isso deixa as autoridades com duas alternativas. A primeira é a que está sendo adotada: reagir à medida que os surtos eclodem e aceitar que isso produzirá certo número de vítimas fatais. A segunda é a retomada das campanhas preventivas de vacinação em massa, algo que seria dispendioso e também poderia resultar em algumas mortes, por conta da reação das pessoas à vacina. Diante de surtos isolados, essa segunda abordagem não parece recomendável, mas se o avanço no desmatamento da região amazônica provocar a eclosão de mais episódios como o atual, talvez seja necessário adotá-la. No caso do surto em curso, a pronta ação das autoridades deve fazer com que a doença seja rapidamente contida - pelo menos no tocante aos seres humanos. Mas ninguém sabe dizer quanto tempo levará para Rossman ouvir os bugios gritando de novo em sua fazenda.

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