Gel para não engravidar

Gel injetável é a mais nova promessa de método anticoncepcional masculino

Jairo Bouer*, O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2017 | 03h00

Um gel injetável é a mais nova promessa de um método anticoncepcional masculino que seja altamente eficaz, sem efeitos colaterais e reversível. Há décadas os cientistas buscam uma alternativa para que os homens possam dividir a responsabilidade da prevenção de uma gravidez indesejada com suas parceiras. 

Hoje, na prática, existem duas possibilidades para os homens que não querem ser pais: os preservativos e a vasectomia. O uso regular de camisinha enfrenta resistência crescente, principalmente entre os casais que têm uma relação mais duradoura. Já a vasectomia, além de exigir um pequeno procedimento cirúrgico, é considerada um método definitivo. É até possível tentar a reversão. Mas, muitas vezes, sem sucesso. 

Um novo estudo divulgado na última semana revelou que o uso experimental desse gel em macacos mostrou 100% de taxa de sucesso, sem efeitos indesejados. O gel é injetado nos ductos deferentes (canais que ligam os testículos ao pênis) e bloqueia a passagem dos espermatozoides. Importante dizer que o gel não contém nenhum tipo de hormônio.

Os ductos deferentes são exatamente as mesmas estruturas que são interrompidas em uma vasectomia. A diferença com o gel é que a aplicação posterior de uma solução salina pode “lavar” o produto e reverter o bloqueio à passagem dos espermatozoides. 

A ideia de usar um gel bloqueador não é nova. Um método similar vinha sendo testado na Índia já há algum tempo (nesse caso a substância interfere no funcionamento dos espermatozoides). Ele foi aperfeiçoado nos EUA (para bloqueio dos ductos deferentes) e, mais recentemente, testado pelo Centro de Pesquisa com Primatas da Universidade da Califórnia. 

Um estudo anterior com esse gel feito com coelhos mostrou que o método foi efetivo para evitar a presença de espermatozoides no sêmen por 12 meses e, também, pode ser revertido com sucesso. O trabalho mais atual, publicado no periódico<CF742> Basic and Clinical Andrology</CF>, testou o gel em macacos e obteve eficácia total na prevenção de gravidez por até dois anos. Se tudo der certo nessa fase da pesquisa, os ensaios clínicos com humanos devem ser iniciados já no próximo ano. 

Longa Trajetória. Enquanto os anticoncepcionais femininos estão disponíveis no mercado desde os anos 1960, no universo masculino a promessa de contracepção continua distante. Nos anos recentes, várias tecnologias vêm sendo buscadas. Aqui mesmo na coluna, há cerca de um ano, trouxemos a experiência de uma pesquisa da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que estava buscando bloqueio de uma proteína (ABHD2) para tentar “barrar” o aporte de energia para os espermatozoides, impedindo que eles se movimentassem de forma adequada.

Também no ano passado, um grupo da Organização Mundial da Saúde e da Universidade da Virgínia, nos EUA, anunciou um método hormonal injetável (uma combinação de progesterona e testosterona), testado em sete países, como um contraceptivo masculino. As injeções teriam de ser tomadas a cada dois meses para reduzir a contagem de espermatozoides a um nível tão baixo que uma gravidez se tornaria pouco provável. O índice de sucesso bateu em cerca de 96% (próximo dos 99% da pílula feminina, também com hormônios). 

O problema foram os efeitos colaterais, como dor muscular, sintomas depressivos, alteração da libido, suor noturno e acne. Em função da frequência e intensidade deles, os cientistas decidiram interromper a pesquisa. 

Quem sabe agora o gel se mostre efetivo, seguro e reversível também em humanos, oferecendo uma nova perspectiva para os casais que querem dividir a responsabilidade de evitar uma gravidez. É esperar para ver! 

*Jairo Bouer é psiquiatra

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