DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
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Governo diz não poder avaliar liberação de vacina contra dengue

Alckmin disse que pediria autorização especial para antecipar produto, ainda em teste, desenvolvido pelo Instituto Butantã

Lígia Formenti, O Estado de S. Paulo

23 Março 2015 | 11h49

BRASÍLIA - O coordenador do Programa Nacional de Controle de Dengue, Giovanini Coelho, disse não ser possível fazer no momento qualquer avaliação sobre o uso da vacina desenvolvida pelo Instituto Butantã contra dengue. Já o ministro da Saúde, Arthur Chioro, declarou nesta segunda-feira, 23, que não foi oficialmente informado sobre a intenção, anunciada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) na semana passada.

Em meio à epidemia que afeta o Estado de São Paulo, Alckmin afirmou na quinta-feira, 19, que encaminharia um pedido de autorização especial à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para antecipar a produção do imunizante.

O ministro afirmou, no entanto, que a análise somente poderá ser feita caso o laboratório apresente todo o dossiê exigido pela agência reguladora para avaliar a segurança e a eficácia do produto. "Se toda documentação for apresentada, certamente pedirei prioridade na análise", afirmou. "Mas isso não significa que vamos fazer uma análise menos rigorosa. Não podemos abrir mão da segurança."

Os testes da vacina do Butantã, desenvolvida em parceria com National Institute of Health (NIH) dos Estados Unidos, estão em fase II. O ministro observou também haver um número limitado de doses do imunizante nos estoques do Butantã, 12 mil doses. "Até que ponto vale você criar uma expectativa na população?", questionou? "O fato é que hoje não temos uma vacina disponível. A população não deve se desmobilizar e manter todas as medidas de prevenção contra o mosquito", afirmou.

Já para Coelho, pesquisas realizadas até agora com o produto tiveram resultados promissores. Foram realizados ensaios de fase II, que analisam principalmente a segurança e a capacidade de a vacina produzir anticorpos.

Mas, completou, estudos que avaliam a eficácia  ainda estão sendo planejados. "Enquanto não tivermos os resultados, não é possível emitir qualquer opinião sobre seu uso", avaliou Coelho. Pelo cronograma inicial, a vacina - que prevê aplicação de uma dose - deveria entrar no mercado a partir de 2018.

A vacina em desenvolvimento no Instituto Butantã não é a única que está em fase de pesquisa. A farmacêutica francesa Sanofi também realiza testes de um imunizante contra a dengue. A previsão é a de que o produto, que está em fase mais avançada de desenvolvimento, entre no mercado no próximo ano.

Coelho, no entanto, avalia que este imunizante, embora possa ser uma arma importante, não resolverá sozinho o problema de epidemias provocadas pela doença. "A proteção oferecida não ultrapassa 60%. Para um dos subtipos do vírus da dengue, é de 40%", observou o coordenador.

O fato de a vacina  ser aplicada em três doses, por sua vez, impede que ela tenha uma eficácia para conter uma epidemia em curso, como a existente no Brasil.

"Ela deve ser usada como alternativa a médio e longo prazo", completou. O coordenador avalia que o controle da dengue somente pode ser feito de forma efetiva com o uso simultâneo de diversos recursos. "A capacidade de transmissão do vírus é explosiva. A experiência mostra que, para resolver um problema complexo como esse, é preciso usar  estratégias  variadas."

Dados do Levantamento de Infestação por Infestação para Aedes aegypti mostram que a maior parte de criadouros do mosquito transmissor da dengue nas Regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul foi encontrada em lixo e recipientes usados para abastecimento de água.

Somente no Sudeste a maior parte dos focos do mosquito foi encontrada em depósitos domiciliares, como vasos de plantas e calhas.

O coordenador reconhece que os números indicam que a presença dos focos, em parte, está associada também a deficiências de serviços públicos, como a coleta regular de lixo e o abastecimento de água. "O País tem problemas estruturais. No Recife, ainda há regiões sem abastecimento. Daí afirmarmos que o problema é intersetorial", disse o coordenador. 

Mas ele completa que, mesmo se tais problemas fossem rapidamente solucionados, o problema ainda estaria presente. Ele cita como exemplo Cingapura. "A cidade tem alto índice de desenvolvimento humano, um sistema de abastecimento e de lixo adequado e, mesmo assim, conviveu com altos índices da infecção", explicou.

"Outros fatores também são relevantes: hábitos da população, condições climáticas. Tudo tem de ser levado em conta." Coelho reforçou que atuação da população para adotar medidas de prevenção também é muito importante. "As medidas de prevenção devem ser adotadas por todos, moradores e administração pública."

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