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Saúde

SÃO PAULO

Governo de SP já tinha registro de alta de gripe H1N1 desde novembro

Informe do Centro de Vigilância Epidemiológica mostra que síndrome causada pelo vírus já acumulava 15 casos e 4 mortes

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Fabiana Cambricoli,
O Estado de S. Paulo

30 Março 2016 | 03h00

SÃO PAULO - A Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo já sabia há pelo menos quatro meses do aumento atípico de casos de gripe H1N1 no Estado, revela informe técnico do Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) divulgado na última semana no site do órgão.

De acordo com o documento, embora o pico da doença ocorra durante o inverno, a secretaria passou a notar, a partir de meados de novembro de 2015, um crescimento nas notificações de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) causada pelo vírus H1N1. “Cabe assinalar que se constatou aumento do número de casos de SRAG a partir da semana epidemiológica 46/2015 relacionados à atividade do vírus influenza A (H1N1), contemplando 15 casos e quatro óbitos”, destaca o informe.

Os números registrados nos últimos 45 dias do ano representam 45,5% dos casos e 40% das mortes de todo o ano de 2015. A concentração de casos no final do ano é considerada anormal frente aos números dos anos anteriores. O informe não traz os índices semana a semana, mas, de acordo com o gráfico divulgado no documento, a notificação de casos e óbitos pela gripe H1N1 nos verões dos dois anos anteriores é próxima de zero.

Questionada pelo Estado sobre as ações tomadas, a secretaria disse que, por mais que o Centro de Vigilância Epidemiológica tenha observado o crescimento atípico de casos da doença a partir de novembro, o cenário epidemiológico daquele momento “não indicava risco de expansão expressiva do vírus”.

Após o crescimento de notificações notado a partir de novembro de 2015, mostra o informe, os casos de SRAG associados a H1N1 explodiram em janeiro e, desde então, vêm crescendo. Balanço mais recente da secretaria mostra que já são 260 registros da síndrome e 38 mortes apenas nos três primeiros meses deste ano no Estado. Somente na capital, foram oito vítimas. Em todo o ano passado, foram registrados 33 casos de SRAG, com dez mortes.

Demora. De acordo com especialistas, a Secretaria Estadual da Saúde poderia ter agido mais rápido ao perceber o aumento inesperado de casos de SRAG causadas pelo H1N1. “Em novembro e dezembro já começamos a diagnosticar mais gripe entre os pacientes. Pelo menos um alerta à população deveria ter sido feito, para que as pessoas ficassem mais atentas aos sintomas de agravamento da gripe e para que os próprios produtores de vacina tentassem acelerar sua produção”, diz Artur Timerman, infectologista do Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos.

Apesar do aumento de casos notado há quatro meses, a secretaria só pediu nesta segunda-feira, 28, ao Ministério da Saúde a antecipação da campanha de vacinação no Estado.

Para Celso Granato, professor de Infectologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o alerta deveria ter sido dado aos médicos, para não criar pânico na população. “A secretaria poderia ter deixado a classe médica um pouco mais informada, para não criar um alerta exagerado, porque o limite entre gerar benefício e pânico é muito tênue. Quanto à vacina, ela acabou de ficar pronta, não sei se eles conseguiriam acelerar esse processo”, afirma.

Monitoramento. A Secretaria Estadual da Saúde afirmou que, mesmo sem considerar que havia risco de expansão significativa do vírus naquele momento, “intensificou o monitoramento de circulação da doença em diferentes regiões do Estado”. De acordo com a pasta, somente neste ano a tendência de aumento de casos “ficou mais evidente”, o que levou o governo a promover, na semana passada, vacinação extra em 67 municípios do interior do Estado mais afetados pela doença e pedir a antecipação da campanha de 2016 ao Ministério da Saúde.

A secretaria afirmou ainda que a definição do calendário de imunização é feita pelo órgão federal e que a campanha de imunização é a forma “mais consistente de combater o vírus”. Segundo a pasta, a vacina é produzida com as cepas de maior circulação no inverno europeu, o que faz com que a produção das vacinas no Brasil seja concluída somente em meados de março ou abril.

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