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Guia faz turista usar arruda como ‘proteção’ contra o 'Aedes'

Crendice não tem base científica; nas vans usadas para visitar o Cristo Redentor, cheiro é de repelente, segundo funcionários

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Constança Rezende,
O Estado de S. Paulo

19 Fevereiro 2016 | 03h00

Com medo de perder a clientela de estrangeiros, assustada com o surto de dengue e zika, o guia turístico de favelas Paulo César Martins, o Amendoim, adotou um procedimento que, afirma, afasta o Aedes aegypti. A primeira etapa do roteiro de visitas que promove inclui a colocação de galhos de arruda nas orelhas, dentro de bolsos e meias.

Nas favelas cariocas, o saneamento e a coleta de lixo costumam ser precários, o que facilita a formação de criadouros do inseto. A crendice popular assegura que arruda é uma planta que afasta o mau-olhado e o azar. Amendoim, que cobra R$ 75 por turista, avisa em inglês, italiano, francês e espanhol, antes do início do passeio, que arruda também afasta o mosquito.

Os italianos Silvia Di Giorgio e Andrea Carlet, de 26 e 39 anos, obedeceram ao guia e circularam de manhã pela Favela da Rocinha, em São Conrado, zona sul, com galhos de arruda no corpo. No caminho, moradores pegavam com Amendoim os galhos que sobraram, para também pendurá-los na orelha. Em sua página no Facebook, o guia exibe fotografias de estrangeiros com a planta e a seguinte legenda: “Esses turistas estão livre do vírus da zika, arruda neles! É o melhor remédio, venha você também”. Amendoim é ex-participante do programa No Limite, exibido na TV Globo em 2000.

Outros guias que costumam promover tour na Rocinha afirmam que não tomaram providências para proteger os clientes contra o Aedes nem os advertem para a necessidade de usar repelentes. Luiz Henrique Shulze, que nesta quinta-feira, 18, liderava um grupo de oito franceses na favela, explicou a razão de omitir o problema dos clientes: “Não temos as informações necessárias para passar para eles. Cada hora uma instituição fornece um dado diferente. Mas, quando perguntam algo sobre a dengue, eu respondo e os tranquilizo”.

Cristo. O juiz aposentado francês Jean Marrie, de 67 anos, não reclamou da falta de informação. “Sei de todos os riscos. Passei repelente antes de vir. A França tem ilhas no Caribe que tiveram problemas com a dengue, já vimos isso”, disse.

Empregados das vans que levam turistas ao Cristo Redentor disseram que o uso de repelentes tem sido muito comum. São tantos os turistas com esses produtos que as vans ficam com o cheiro dos produtos, contaram. 

O casal Paola Gomes e Jonatan Barquez, de 26 e 25 anos, passava repelente na fila do trem para o Corcovado, pela manhã. “Não é uma doença distante da gente. Já tivemos dois casos na Argentina. Grávida, não viria de jeito nenhum”, disse a estudante.

Presidente da Sociedade de Infectologia do Estado, Alberto Chebabo disse que não há fundamento científico no uso de arruda. “Nem andar com citronela, andiroba, cravo da índia. Comparado com pernilongos, o mosquito da dengue é o que tem mais resistência a essas substâncias.”

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