Hemocentro cria teste para detectar zika vírus em transfusão

Exames serão feitos em bolsas de sangue destinadas a gestantes ou para transfusões intrauterinas

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

06 Fevereiro 2016 | 03h00

SOROCABA - O Hemocentro de São Paulo começa a aplicar depois do carnaval um novo método para detectar a presença do zika vírus em bolsas de sangue destinadas a gestantes ou para transfusões intrauterinas (diretamente no feto). De acordo com o pesquisador José Eduardo Levi, chefe do Departamento de Biologia Molecular, a iniciativa é uma medida de precaução, já que não existe confirmação de que a transmissão do vírus por transfusão represente risco para o feto. “No caso do zika, a grande preocupação é com grávidas e feto, por isso achamos que não seria boa ideia, nesses casos, usar sangue com o risco de ter o vírus.”

Segundo ele, a proposta foi desenvolver um teste para ser usado num pequeno número de bolsas - 0,16% do estoque do banco - destinado a esse público-alvo. Desde o início da epidemia de zika no Brasil, em 2015, pelo menos dois casos de transmissão por meio de transfusão sanguínea foram confirmados no Hemocentro da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em relação à dengue, é conhecida a possibilidade de ocorrer transmissão do vírus na transfusão.

Segundo o pesquisador, em regiões epidêmicas, estima-se que 1% dos doadores de sangue sejam positivos para a dengue no momento da doação, mas não é feito nenhum tipo de triagem laboratorial. “Isso nunca foi considerado um problema, pois, na maioria das vezes, o receptor do sangue nem chega a desenvolver a doença.” Segundo ele, no Brasil nunca foi detectado caso grave de dengue decorrente de transfusão. “No caso do zika vírus em Campinas, o receptor contaminado não apresentou sintomas, embora tenha sido confirmada a presença do vírus em seu sangue.”

Conforme Levi, não há evidências de que o zika vírus seja problema em transfusões, à exceção de grávidas. “Não temos evidência, por exemplo, de que o zika adquirido via transfusão possa causar microcefalia, mas acreditamos que exista uma alta possibilidade.” Levi também é professor do Instituto de Medicina Tropical da USP e integra da Rede Zika - grupo de pesquisadores formado em dezembro para acompanhar a epidemia de zika e os crescentes casos de microcefalia.

O desenvolvimento do teste resulta de um projeto apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para prevenir a transmissão de malária por transfusão no Estado de São Paulo. Segundo Levi, em dezembro foi solicitado um recurso adicional para estender o estudo ao zika vírus. A metodologia alia um método de biologia molecular em tempo real a protocolos desenvolvidos no Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos. Para uso no Hemocentro de São Paulo, foram feitas algumas adaptações nesse protocolo.

Confirmado o sucesso, o teste foi liberado para uso por pesquisadores da Rede Zika. De acordo com Levi, diante da falta de evidências sobre a importância de triar todo o sangue doado para a presença do vírus zika, não há necessidade de incluir o teste na rotina de todos os bancos de sangue do País. “Estamos observando atentamente a evolução dos casos e, se forem surgindo evidências de que é necessário, vamos batalhar por mais recursos. Por ora, entendemos ser prudente triar essa pequena parcela”, afirmou.

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