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ENTREVISTA: Fernando Gomez

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Vice-ministro de Saúde da Colômbia: 'Brasil não registrava microcefalia'

Para Fernando Gomez, subnotificação histórica de casos de más formações no Brasil impede comprovação de elo com o zika

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Lígia Formenti

07 Março 2016 | 03h00

CÚCUTA - Num tom mais cauteloso que o exibido por autoridades sanitárias brasileiras, o vice-ministro de Saúde da Colômbia, Fernando Gomez, diz não haver ainda elementos suficientes para apontar o zika como responsável pelo aumento de casos de microcefalia. “Existe uma relação, mas é preciso fazer mais estudos para se comprovar a causalidade.” Em entrevista ao Estado, Gomez não hesita em dizer que há uma subnotificação histórica de microcefalia no Brasil e afirma que a opção do aborto é importante para as mulheres. Aqui, os principais trechos:

O senhor está convencido de que o zika causa microcefalia?

Os dados do Brasil mostram haver uma associação entre zika e microcefalia, mas isso não é suficiente para se estabelecer a causalidade. É necessário esperar outros estudos.

Além do zika, o que poderia estar associado a esse aumento?

Acreditamos que historicamente o Brasil não registrava o número de casos de microcefalia que de fato deveria ocorrer. Uma das possibilidades é de que a situação do zika tenha chamado a atenção para um problema que já estava presente, mas que até então não era notado. No Brasil eram informados, em média, 140 casos anuais de microcefalia relacionados a outras causas, número comparativamente bem menor do que o daqui. Registrávamos 150. Brasil e Colômbia têm taxas semelhantes de fertilidade. Se aplicássemos nossos indicadores para o Brasil, o número de casos giraria em torno de 700.

O senhor apontaria somente a subnotificação?

Seria importante investigar outras causas, como problemas ambientais e a interação entre enfermidades, por exemplo. Aqui na Colômbia a epidemia de dengue e chikungunya já passou. Aconteceram em épocas distintas. Não sei se o mesmo aconteceu no Brasil. Será que o fato de se ter epidemias simultâneas poderia exacerbar o risco de microcefalia?

O Brasil foi precipitado ao fazer essa relação?

Todo o país tem a responsabilidade de vigiar um aumento expressivo de casos. E reportá-lo. Penso que o problema do Brasil não está nas projeções, mas na retrospectiva. Como os números existentes até a epidemia de zika eram subnotificados, não há como estipular qual foi o aumento exato do número de casos pós-epidemia.

O senhor está prevendo aumento de abortos em seu país por causa do receio de zika provocar microcefalia nos bebês?

A Colômbia tem um conjunto de regras sobre aborto relativamente progressista. Por isso, é provável que muitas mulheres lancem mão desse direito. Alertamos as mulheres sobre os seus direitos, sobre as possibilidades previstas em lei para a interrupção da gestação, mas não podemos em última instância fazer uma recomendação expressa. A decisão é da mulher e de seu companheiro.

Na Colômbia é necessária autorização prévia para interrupção da gravidez? Qualquer médico pode fazer?

Respeitadas as condições determinadas em lei, e aí estão os casos que envolvem o sofrimento psicológico da gestante, ela pode ser feita em qualquer hospital, pelo obstetra.

No Brasil, não há permissão para aborto nesses casos. O País deveria rever suas regras?

Não posso opinar por outro país, mas posso dizer que é uma opção importante para a mulher, para o casal, principalmente frente a uma enfermidade grave, com consequências importantes que terão reflexos por toda a vida. Uma das justificativas mais usadas aqui para interrupção é o risco de sofrimento mental da mulher.

Qual a contribuição que o senhor acha que a Colômbia pode trazer para o melhor conhecimento da zika e da microcefalia?

Um dos aspectos mais importantes é estimar a incidência de microcefalia após o surgimento da epidemia. É uma diferença com o Brasil, onde o fenômeno foi descoberto quando estava em curso. Aqui podemos acompanhar desde o início. Estamos contando os casos de zika e observando as gestantes. Caso a caso, semana a semana. Isso nos permitirá estimar com maior rapidez as taxas de incidência da infecção, a relação entre zika e microcefalia e a influência no aumento de Guillain-Barré.

Qual é o maior problema na Colômbia relacionado ao zika?

Temos cidades distantes, onde a comunicação não é tão boa. Nosso receio é de que haja casos não diagnosticados, que as grávidas com zika não sejam acompanhadas. Daí, nosso esforço para reduzir os riscos de que isso aconteça. Investimos na informação. E a população está se dando conta. Desde janeiro, a palavra mais buscada pelos colombianos no Google é zika.

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