AC Camargo Cancer Center
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Hospitais usam biópsia menos invasiva para monitorar câncer de pulmão

Benefícios do exame são estudados desde 2015, mas técnica só estava disponível para pacientes que participavam de pesquisa clínica

Fernanda Bassette, Especial para o Estado

02 Agosto 2017 | 03h00

Três grandes hospitais de São Paulo incluíram na rotina clínica hospitalar a realização da biópsia líquida como forma de monitoramento do câncer de pulmão. Trata-se de um exame minimamente invasivo, rápido e indolor, realizado por meio de uma simples coleta de sangue do paciente, que consegue detectar fragmentos de DNA do tumor na corrente sanguínea (ct DNA) e prever o risco de resistência à droga que está sendo utilizada. Até então, apenas pacientes que participavam de pesquisas nesses centros eram beneficiados.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de pulmão é o mais comum dos tumores malignos e um dos mais letais, com sobrevida média entre 7% a 10% em cinco anos. A grande vantagem da técnica é que ela permite monitorar o comportamento do tumor no organismo do paciente sem uma biópsia convencional – em que se retira um fragmento do tumor para análise em laboratório, com internação e anestesia – e sem a necessidade de exames complexos de imagem. Vale ressaltar que a biópsia convencional ainda é necessária e fundamental para o diagnóstico correto do tipo de câncer.

O uso da biópsia líquida é bem estabelecido mundialmente para o câncer de pulmão, e há estudos para tumores de mama e colorretal. No caso do câncer de pulmão de pequenas células, o exame busca mutações no gene EGFR, para o qual há indicação do uso de uma terapia alvo – droga que age diretamente no tumor, preservando as outras células. Essa mutação aparece em cerca de 20% dos pacientes.

Após o início do uso da medicação, cerca de metade dos pacientes passa a resistir ao medicamento e o tumor volta a progredir. Nesses casos, uma nova biópsia líquida é feita e procura-se a mutação de resistência ao medicamento, a T790M.

“Isso é a medicina do futuro. Do ponto de vista clínico, é isso o que importa: você não ter de fazer nova biópsia em um paciente já debilitado. A mutação T790M não é detectada no tumor primário, mas consigo identificá-la no sangue sem outra biópsia convencional”, afirma Dirce Maria Carraro, pesquisadora e coordenadora do Laboratório de Genômica e Biologia Molecular do AC Camargo.

No AC Camargo Cancer Center, os benefícios da biópsia líquida começaram a ser estudados em 2015. Os resultados foram tão satisfatórios que, desde o fim de 2016, a técnica passou a ser oferecida como rotina para os pacientes em tratamento no hospital. O mesmo aconteceu no Albert Einstein e no Sírio-Libanês, que também pesquisam os benefícios e incorporaram a técnica recentemente.

Segundo Helano Freitas, coordenador de pesquisa clínica do AC Camargo Cancer Center, em menos de um ano foram feitas cem biópsias liquidas na prática clínica. No Einstein, em quatro meses foram 20 exames e no Sírio-Libanês, 11 biópsias. “O tumor de pulmão é o mais comum do mundo e cerca de 20% dos pacientes terão a mutação do gene EGFR. Desses, metade também terá a mutação de resistência. Esse é um exemplo muito claro e muito bem estabelecido do benefício do uso da biópsia líquida como rotina de monitoramento”, diz Freitas.

Antes das imagens. Outro potencial da biópsia líquida – que já é considerada uma das principais revoluções da medicina de precisão – é detectar a recidiva do tumor no corpo do paciente, antes mesmo que ele se torne visível em análises convencionais feitas por imagem. A constatação é de um estudo realizado pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês, publicado em abril deste ano no Lung Cancer, uma das principais revistas científicas da área.

Ao todo, 60 pacientes estão sendo monitorados em pesquisa no Sírio-Libanês e fazem coletas de sangue mensalmente para a realização da biópsia líquida em busca das mutações alvo e de resistência ao tratamento. “Antes, esse monitoramento era feito apenas depois da piora clínica do paciente ou da progressão da doença”, avalia Anamaria Camargo, coordenadora do Centro de Oncologia Molecular do Instituto de Ensino e Pesquisa do hospital.

Em abril, o hospital publicou um estudo de caso em que mostra ter identificado, por meio da biópsia líquida, a resistência ao medicamento na corrente sanguínea do paciente dois meses antes de a imagem detectar o tumor. Também conseguiu identificar uma segunda mutação de resistência, nunca antes descrita na literatura (amplificação do alelo mutado) e sem medicação disponível.

“Esse achado é fundamental porque no futuro poderão ser desenvolvidas drogas específicas para essa segunda mutação. Assim como a T790M justificou a criação de um medicamento, essa nova mutação também deve despertar interesse”, afirma a pesquisadora, destacando que a paciente em questão teve a sobrevida prolongada em mais de um ano com o uso da medicação adequada.

A única ressalva em relação ao uso da biópsia líquida como rotina é o custo do procedimento – que nem sempre é coberto pelos planos – e do medicamento para tratar a resistência ao tumor. Cada biópsia líquida custa entre R$ 1 mil e R$ 1,5 mil. A droga foi aprovada recentemente no Brasil e fica em torno de R$ 30 mil a cartela com 30 comprimidos – o suficiente para um mês. “O medicamento é um avanço fantástico no tratamento do câncer de pulmão, mas como torná-lo acessível ao paciente? O alto custo é uma barreira”, afirma Freitas.

Summit do ‘Estado’ ocorre no dia 14

As novas descobertas em medicina e saúde e os tratamentos sob medida para pacientes estarão em debate no Summit Saúde Brasil, evento que o Estado realiza em 14 de agosto, no Sheraton WTC, em São Paulo.

Em sua segunda edição, o Summit terá três palestras e oito painéis, que reunirão mais de 30 especialistas brasileiros e estrangeiros para debater o que há de mais inovador em gestão e tecnologia. Aparelhos e medicamentos do amanhã, administração de custos e qualidade e judicialização da saúde estão entre os temas em pauta.

Um dos principais palestrantes estrangeiros será o médico inglês Jack Kreindler, fundador do Centro de Saúde e Performance Humana (CHHP), em Londres, e um grande difusor de tecnologias médicas por inteligência artificial.

O evento é voltado para profissionais do setor, e há desconto para assinantes do Estado. Os ingressos estão à venda no site summitsaudebrasil.com.br.

 

 

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‘Em 5 dias, estava praticamente sem dor’, diz paciente que mudou tratamento após biópsia líquida

Gisele Ruiz, diagnosticada com câncer de pulmão, relata procedimentos e destaca uso compassivo de medicamento sem aval no País

Fernanda Bassette, Especial para o Estado

02 Agosto 2017 | 03h00

A administradora de empresas Gisele Ruiz, de 41 anos, é uma das pacientes com câncer de pulmão que se submeteu à biópsia líquida no Hospital AC Camargo Cancer Center para monitorar a doença e acabou descobrindo que seu tumor estava resistente à medicação principal. Com a doença avançando, era preciso agir rápido e mudar a droga para a terapia de segunda geração, que ainda não havia sido aprovada no Brasil. 

Na época, o hospital conseguiu a liberação do uso da droga de resistência por meio do uso compassivo - um programa aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em que o paciente recebe o medicamento diretamente do laboratório, sem custos, enquanto houver benefícios. E assim Gisele se mantém até hoje, com a doença sob controle e sem dores.

Até chegar a esta fase, no entanto, a administradora de empresas passou por momentos difíceis. O próprio diagnóstico da doença demorou muito tempo. Por ser uma pessoa ativa, não fumante e praticante de musculação e exercícios físicos, as fortes dores nas costas eram frequentemente confundidas com estresse no trabalho ou mau jeito durante a prática esportiva. Ela chegou a fazer fisioterapia e RPG, mas nada tirava a dor.

O diagnóstico veio apenas quando ela teve febre alta e foi internada. Durante os exames, foi constatado que estava com 1,5 litro de líquido acumulado no pulmão. A confirmação do câncer chegou após a realização da biópsia convencional. “O tumor já estava com metástase nos ossos. Tive, então, de fazer uma cirurgia para colocar uma prótese de titânio na perna e um tipo de cimento na bacia”, conta a administradora.

Além da medicação alvo para o tumor, Gisele fez seis sessões de quimioterapia e dez de radioterapia. Nesse período, perdeu 15 quilos e sentia-se extremamente debilitada e enfraquecida. Voltou a morar com os pais e chegou a ficar sem caminhar por um tempo por fortes dores e falta de força. Até morfina teve de usar. Depois passou a utilizar uma bengala como apoio.

Ao fim das sessões de quimioterapia, Gisele foi submetida à biópsia líquida, que indicou a resistência do tumor e a necessidade de mudar a medicação, com o uso compassivo. 

Vida normal. “No dia seguinte que comecei a medicação já senti uma melhora. Em cinco dias eu já estava praticamente sem dor. Voltei a ter uma vida absolutamente normal”, afirmou. 

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Summit Saúde do ‘Estado’ debate novas descobertas em medicina

Evento, que ocorre no dia 14 de agosto, terá 3 palestras e 8 painéis, que reunirão mais de 30 especialistas brasileiros e estrangeiros

O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2017 | 03h00

As novas descobertas em medicina e saúde e os tratamentos sob medida para pacientes estarão em debate no Summit Saúde Brasil, evento que o Estado realiza em 14 de agosto, no Sheraton WTC, em São Paulo.

Em sua segunda edição, o Summit terá três palestras e oito painéis, que reunirão mais de 30 especialistas brasileiros e estrangeiros para debater o que há de mais inovador em gestão e tecnologia. Aparelhos e medicamentos do amanhã, administração de custos e qualidade e judicialização da saúde estão entre os temas em pauta.

Um dos principais palestrantes estrangeiros será o médico inglês Jack Kreindler, fundador do Centro de Saúde e Performance Humana (CHHP), em Londres, e um grande difusor de tecnologias médicas por inteligência artificial. 

O evento é voltado para profissionais do setor, e há desconto para assinantes do Estado. Os ingressos estão à venda no site summitsaudebrasil.com.br.

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