Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Hospital deixa de receber repasse do governo e suspende cirurgias eletivas

Desde março o governo federal deixa de pagar o Hospital São Paulo; segundo o diretor-superintendente da unidade, falta dinheiro para remédios, comida e salários; outros hospitais do País também sofrem

Fernanda Bassette,

02 Julho 2012 | 22h30

 O Hospital São Paulo – unidade vinculada à Universidade Federal de São Paulo(Unifesp) – suspendeu ontem todas as cirurgias eletivas (agendadas) porque está desde março sem receber o repasse do governo federal referente ao Programa Nacional de Reestruturação dos Hospitais Universitários Federais (Rehuf).

A decisão foi tomada na sexta-feira pelo Conselho Gestor do hospital, depois que a assessoria financeira do hospital apontou a necessidade de um plano de contingência para diminuir as despesas nos próximos 40 dias e evitar que a unidade entre no vermelho. A situação será reavaliada a cada 48 horas.

“Não consigo honrar a folha de pagamento, comprar remédios, comprar insumos e pagar comida sem ter essa verba de custeio. Fizemos todos os esforços orçamentários possíveis”, diz José Roberto Ferraro, diretor superintendente do hospital, que também pediu ajuda às secretarias de saúde do Estado e do município para driblar o problema.

O Hospital São Paulo é um dos maiores do País em atendimento de pacientes SUS. A ordem da direção é para que os departamentos de todas as especialidades não chamem mais nenhum doente para ser operado.

Segundo Ferraro, a unidade faz uma média de 2,8 mil cirurgias por mês, sendo que 1,5 mil delas são de pacientes agendados – aqueles que serão afetados diretamente pela medida. As demais são cirurgias de pacientes que já estão internados.

“Nossa medida tem zero relação com a greve (de técnicos e professores das universidades federais, que já afeta parte do atendimento em hospitais universitários) porque mais da metade dos profissionais do hospital são celetistas e não servidores federais. O problema aqui é falta dessa verba”, afirmou o superintendente.

Duas fontes. Segundo Ferraro, o Hospital São Paulo tem duas fontes principais de recursos: parte vem da prestação de serviços ao SUS, que é de cerca de R$ 9 milhões por mês, e parte é o recurso federal proveniente do Rehuf. Essa verba é vinculada ao cumprimento de metas e é repassada para o hospital em duas parcelas por ano – o que representa cerca de R$ 5 milhões por mês.

Ferraro explica que os valores referentes a investimentos (para reformas, por exemplo) estão sendo repassados. O problema estaria no repasse da verba de custeio. “Esse é um recurso programado no nosso orçamento, que deveria ter sido liberado em março. Eu, sabendo que não vou conseguir comprar remédio nos próximos dias, tive de dar o primeiro passo, que é suspender as cirurgias menos urgentes. Não posso colocar o doente eletivo em risco”, diz Ferraro.

O problema não é exclusivo do hospital universitário da Unifesp. Outros centros ouvidos pelo Estado também reclamam de atraso no repasse de verbas do Rehuf. EmCuritiba, o Hospital das Clínicas reclama de endividamento e diz que manterá o serviço de atendimento apenas enquanto os fornecedores mantiverem as entregas. A assessoria da direção do hospital informou que há um déficit de 600 servidores no hospital, o que tem dificultado o cumprimento das metas exigidas pelo Ministério da Saúde.

Em Natal, o Hospital Universitário Onofre Lopes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, já havia suspendido as cirurgias eletivas por causa da greve dos servidores, mas admite que o atraso tem causado transtornos. “Esta verba é essencial para vida cotidiana dos hospitais, é com elas que fazemos a compra de medicamentos”, explica o diretor do hospital, José Ricardo Lagreca . Segundo ele, o Ministério da Saúde prometeu, na última sexta-feira, autorizar o pagamento, no máximo, até hoje. “Vai ser um desafogo, pois é uma verba que já deveria ter vindo”, admite Lagreca.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.