Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Imunização contra a febre amarela precisa atingir 472 milhões no mundo

Para conter surtos, cobertura vacinal deveria chegar a 80%, o que exigiria aplicar doses em 40 milhões no Brasil

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2018 | 20h00

GENEBRA - Quase meio bilhão de pessoas no mundo ainda precisariam ser vacinadas contra a febre amarela. Isso 80 anos depois da chegada ao mercado da vacina para lidar com a doença. Um estudo realizado por cientistas das Universidades de Oxford e Harvard e da Organização Mundial da Saúde (OMS) - e financiado pela Fundação Bill e Melinda Gates - constatou que apenas metade da população de áreas de risco está imunizada. 

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O trabalho, publicado no fim do ano passado, ainda se refere à realidade da doença em 2016. Não estão relatadas as campanhas de vacinação no Brasil em 2017 nem a ampliação das zonas de risco de transmissão. 

“De uma forma geral, houve um aumento substancial da cobertura de vacinas desde 1970. Mas hiatos notáveis ainda existem dentro das zonas de risco da febre amarela”, alertam os cientistas. O estudo ainda contou com a participação de pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e mesmo do Ministério da Saúde no Brasil. 

“Estimamos que entre 393,7 milhões e 472,9 milhões de pessoas ainda precisam de vacinação em áreas de risco de transmissão de febre amarela para atingir os 80% de cobertura recomendados atualmente pela OMS”, apontam os autores do estudo. 

A agência mundial de Saúde estima que, para controlar um surto, pelo menos 80% da população de uma área precisa estar imunizada. Ao fim de 2016, a média era que 52% das populações em áreas de risco ainda necessitavam ser vacinadas, ainda que as diferenças entre países sejam profundas. “Os surtos substanciais de febre amarela nos últimos dois anos em Angola e Brasil alertam para a necessidade de avaliar os esforços de controle”, dizem. Apesar da existência da vacina desde 1937, a doença ainda causa entre 29 mil e 60 mil mortes por ano no mundo. 

O estudo foi produzido depois que Angola, em 2015, registrou o maior surto da febre amarela na África em mais de 20 anos. “A epidemia angolana expôs a vulnerabilidade da preparação local e das agências internacionais”, admitem os pesquisadores. “Os esforços para controlar surtos com campanhas de vacinação têm sido minados por baixo fornecimento de vacinas e outros desafios operacionais”, afirmam. 

Em partes do Estado do Amazonas, a cobertura chega a perto de 100% e, de uma forma geral, o Brasil era considerado em 2016 como um dos locais com cobertura mais adequada que a africana. A taxa de cobertura no Brasil foi elevada entre 1970 e 1980. Mas sofreu uma queda na década de 1990. Em 2016, porém, estaria de volta a patamares mais elevados. 

No total, o estudo revela que 40 milhões de brasileiros ainda precisariam ser vacinados em 2016. Para que a cidade de São Paulo, por exemplo, tivesse uma cobertura de 80%, seriam necessárias 8,6 milhões de doses, além de 4,8 milhões no Rio, 2 milhões em Salvador, 1,9 milhão em Fortaleza e 400 mil em Brasília. 

Mas o maior desafio estaria na África, com 396 milhões de pessoas necessitando a vacinação. Na América Latina, esse número seria de 76,9 milhões. 

Demanda. A realidade, porém, é que as quatro empresas credenciadas pela OMS para fornecer as vacinas não têm a capacidade de atender a essa demanda. “Com os estoques de vacinas de emergência no mundo esgotados em meados de 2016, a OMS autorizou o uso fracionado de doses de forma temporária”, disseram os cientistas. 

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