Reprodução/Instagram
Reprodução/Instagram

Ingerir placenta ganha adeptas

Especialistas dizem que não há comprovação científica sobre benefícios nem malefícios

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

15 Setembro 2016 | 03h00

A prática de ingerir a placenta após o parto, chamada placentofagia, voltou a ser discutida após a declaração da apresentadora e chef de cozinha Bela Gil, que afirmou ter consumido parte do órgão em uma vitamina quando seu segundo filho nasceu, há três meses. Especialistas dizem que não há comprovação científica sobre benefícios nem relatos de efeitos negativos, mas alertam para a necessidade de cuidados para evitar contaminação.

Bela conta que teve um parto domiciliar e a ingestão da placenta fez parte do processo. “Esperei ela sair naturalmente e parar de pulsar para cortar o cordão (umbilical). Já é prática das doulas e das parteiras dar a placenta para a mãe. É um órgão cheio de vitaminas e minerais, tanto que os mamíferos comem a placenta. Ajuda a repor os nutrientes e a diminuir o risco de depressão pós-parto. Acredito que há benefícios”, explica ela.

A apresentadora está entre as celebridades que aderiram à prática, como a socialite Kim Kardashian, a cantora Jennifer Lopez e a atriz Alicia Silverstone. Além de tomar uma vitamina de banana com parte da placenta, Bela também está tomando cápsulas feitas com o órgão desidratado.

O tema causou polêmica nas redes sociais, mas a apresentadora diz não se preocupar com as críticas. “O respeito é fundamental. A crítica não me afeta em nada e o tabu é por falta de informação. Mas é normal, sempre começamos nos questionando na sociedade e, quanto mais pessoas fazem, quanto mais influenciadores, mais normal fica. Hoje, a linhaça já virou quase gergelim. Não tenho dúvida de que, em dez anos, isso possa virar algo rotineiro.”

Há dez dias, a advogada Fabiana Soares Leme, de 37 anos, teve seu segundo filho, Antônio, e bebeu um suco de pitanga e tangerina que continha um pedaço da placenta. “No meu primeiro parto, que foi normal e hospitalar, não levei a placenta e não fiz nada. Meu marido falou que ela era enorme e bonita. Nesse segundo, eu já tinha certeza de que faria alguma coisa.”

Fabiana diz que pesquisou e encontrou duas opções: a técnica que transforma o órgão em um líquido para ser usado na mãe e no bebê, em caso de problemas de saúde, e a ingestão. “Ingerir a placenta sem pudores é parte de um processo de resgate do feminino. Tive anemia após o parto e me recuperei rápido. Não sei o tamanho do benefício porque tomei um medicamento, mas acredito que ele existe.”

Mãe de uma menina de 3 anos e 8 meses, a advogada diz que até lidou com críticas, mas que a pressão foi menor do que imaginava. “O legal de falar é desmistificar isso. Até há pouco tempo, tinha problema de amamentar em local público e isso já está diminuindo”, compara.

Cuidados. Integrante da diretoria da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), o obstetra Corintio Mariani Neto explica que ainda não há pesquisas que comprovem a eficácia da ingestão de placenta para a mulher após o parto. “Como é um órgão que aparece na gravidez e é responsável por nutrir o bebê, há uma crença de que existam algumas propriedades, que ainda não foram identificadas nas pesquisas realizadas. Não tem estudo que comprove que tenha benefício, mas também não há nenhum que fale que faz mal.”

Mariani Neto, que também é diretor do Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros, afirma que é necessário tomar cuidado para evitar contaminação. “Se a mulher decide levar a placenta, é um desejo que deveria ser respeitado, mas ela precisa ver como isso será conservado para não estragar.”

Criador do programa Parto sem Medo, o obstetra Alberto Guimarães diz que a mulher que tem interesse em ingerir a placenta deve pensar no assunto durante o pré-natal e conversar com o profissional que a acompanha antes do parto. “Ela deve lembrar-se que é um material biológico, com risco de infecção se outra pessoa manipular de forma incorreta. Nessa fase, que a mulher está levando um bebê para casa, não precisa de um trabalho a mais. Por isso, o ideal é conversar antes.”

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que não há norma que proíba a prática. Se a família fizer a requisição prévia, deve receber o material acondicionado de forma que ele não apodreça.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.