Ladrão leva laptop de cientista com estudo sobre zika no Rio

Cientista da UFRJ foi assaltado no Santos Dumont; parte da pesquisa não tinha cópia

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2016 | 21h14

RIO -  O cientista Amílcar Tanuri, uma das principais referências brasileiras em pesquisas sobre vírus, teve um laptop furtado no Aeroporto Santos Dumont, no centro do Rio. O equipamento armazenava dados inéditos de duas pesquisas sobre o vírus da zika. Uma delas, a que investiga os efeitos de uma droga contra o vírus, não tinha cópia das informações e os experimentos terão de ser repetidos. 

Tanuri, chefe do Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), calcula que o prejuízo seja de US$ 5 mil, somente em insumos. O furto aconteceu por volta das 21 horas de quarta-feira. Ele chegava de Brasília e esperava um táxi no setor de embarque do aeroporto, quando o telefone celular tocou. 

O laptop estava em uma mala de mão. “Foi uma distração de 30 segundos. Enquanto atendi a ligação, soltei rapidamente a mala. Não cheguei a ver quem roubou. A moça atrás de mim disse que foram dois homens, que entraram em um carro.”

O virologista procurou o setor de segurança da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), que administra o aeroporto, mas foi avisado de que, como o setor de embarque está sem iluminação, as câmeras não captam a placa do veículo nem as imagens dos criminosos.

“Estava tudo completamente às escuras. O Santos Dumont virou zona franca de bandidos. É preciso que se faça intervenção imediata ali. É uma das portas de entrada da cidade, deveria estar bem guardado”, afirmou o pesquisador.

Uma das pesquisas que estavam no computador trazia estudo de caso sobre duas crianças de Campina Grande, na Paraíba, que morreram em decorrência de más-formações provocadas pelo zika. “O mais grave disso é que tinham dados confidenciais dos pacientes, fotografias, imagens das crianças. Isso ficou na mão de alguém”, afirmou Tanuri, que sequenciou o genoma do zika e identificou as mutações que o vírus sofreu desde a descoberta, em 1947.

Droga. A perda da outra pesquisa tem impacto mais imediato. O trabalho trazia dados inéditos sobre o efeito da cloroquina em neurosferas humanas (estruturas celulares que reproduzem o cérebro humano) infectadas por zika. O medicamento já é usado contra malária e tem indicação para grávidas.

Os primeiros testes já haviam se mostrado promissores: as estruturas foram expostas ao zika e tratadas, por cinco dias, com cloroquina em diferentes concentrações. Os testes mostraram que a droga inibiu a infecção e reduziu o número de neurônios infectados, protegendo-os contra a morte pelo vírus. A cloroquina baixou a quantidade de células infectadas entre 65% e 95%.

“Eu sei o resultado (da nova etapa de testes), mas não tenho o dado bruto. Vou precisar repetir a pesquisa. Isso foi o mais impactante desse roubo porque vou precisar de uma semana a dez dias para repetir o experimento”, disse. O trabalho seria publicado na revista científica americana Cell.

O computador também tinha trabalhos antigos de Tanuri, parte com cópias de segurança. “Alguns trabalhos se perderam definitivamente, outros já comecei a baixar da ‘nuvem’”, afirmou. Tanuri acredita que a intenção dos criminosos não era levar sua pesquisa. “Aproveitaram a oportunidade.” No fim de semana, a irmã do pesquisador havia feito um apelo pelas redes sociais para que o computador fosse devolvido, o que, até a noite de ontem, não havia acontecido.

Ao Estado, a Infraero informou que as imagens das câmeras de segurança só são verificadas com ordem judicial. O órgão negou, em nota, que tenha havido falha na iluminação da área externa do aeroporto. “Não há problema de iluminação na rampa externa do terminal de embarque”, diz o texto. De acordo com o órgão, as imagens captadas pelo sistema de segurança são fornecidas aos órgãos de investigação caso sejam solicitadas, o que ainda não aconteceu.

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