Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Mais ativo, idoso não quer morar com filhos

Independência para gerir sua própria vida, companhia e privacidade motivam escolhas

Gustavo Zucchi, especial para o Estado

14 Novembro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Pensar em moradias para idosos é pensar onde mais de 50% da população brasileira vai morar. As projeções mostram que, até 2040, metade do País terá mais do que 50 anos. Assim começam a surgir por aqui modelos que, muitas vezes ainda embrionários, ajudam a mostrar as opções que teremos para oferecer antes mesmo da metade do século. Essas novas formas tentam atender uma variada gama de idosos, das classes mais humildes as mais abastadas.

+++ Crescimento da população de idosos abre debate sobre moradias do futuro

Com menos dinheiro, o poder de escolha é mais escasso. O grande exemplo é a Vila dos Idosos, no bairro do Pari, em São Paulo. Controlado pela Companhia Metropolitana de Habitação (Cohab) e inaugurada na gestão do prefeito Gilberto Kassab, são 145 apartamentos que abrigam idosos que têm renda até três salários mínimos. Uma das primeiras moradoras foi Neide Duque Silva, de 75 anos. A aposentada conta que entrou para o Grupo de Articulação para Moradia do Idoso da Capital (Garmic) por coincidência, ao procurar uma alternativa para o aluguel que pagava e que não estava dando conta. Hoje ela é membro do Conselho Municipal do Idoso e se apaixonou pela nova casa. “Eu acho que está faltando agilizar um pouco mais a parte cultural e de lazer, de atividades. Tem aparelhos de ginástica, mas precisava ter um monitor”, conta. 

+++ Desafios do mercado grisalho no País

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Vai caber a cada País, a cada cidade, a cada região, encontrar alternativas inclusivas para os idosos. Não existe fórmula para isso ainda
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Mariana Barros, editora do portal Esquina

Atrativos

Mesmo sem ter uma adaptação perfeita nos apartamentos, ela diz que há fila de cadastrados na Cohab na tentativa de arrumar uma vaga. O atrativo além do preço (por meio de um programa de locação social, que equivale a 10% do salário e uma taxa simbólica de R$ 35 de condomínio) é a possibilidade de morar ao lado de outros idosos.

“Até recentemente a gente pensava que boa velhice era ir morar com os filhos. Agora as atuais gerações de idosos não querem mais ser dependentes. Quando você convive com pessoas da mesma idade, do mesmo nível de dependência, o avanço dos anos deixa de ser um problema e passa a ser uma experiência para as pessoas”, explica a Professora de Antropologia da Unicamp e autora do livro A Reinvenção da Velhice, Guita Grin Debert. 

 

Independência

O fenômeno não acontece apenas com quem não tem onde morar. Na outra ponta do espectro social, as classes altas que podem pagar não apenas por moradia, mas por uma variada gama de serviços, também busca casas exclusivas. É o caso de Ana Maria Benavente, moradora do Cora Residencial. Aos 80 anos, ela conta que decidiu se mudar no dia que o filho lhe encontrou caída ao lado da cama, desacordada. O que aconteceu por causa de um acidente acabou virando um estilo de vida: “O que eu mais gosto são as amizades. Temos nossa turma de jogar dominó, brincamos, gritamos”, conta. A hospedagem lá custa R$ 7.500. Já a moradora do Solar Ville Garaude, em Alphaville (SP), Gilda Maria Tolentino, 78 anos, vai além: “Tenho duas amigas que quero que venham para cá.” 

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No Estatuto do Idoso, dos 118 artigos nenhum fala em economia, na importância do setor privado. Acreditava-se que a velhice atrasava a economia, quando na verdade elas são inseparáveis
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Henrique Noya, do Instituto de Longevidade Mongeral Aegon

A autonomia é um dos atrativo mais caros a geração que hoje já está na terceira idade. O que eles não querem é alguém lhes falando o que, como e quando fazer. É o caso de Antônio Capozzi de 91 anos e morador do residencial Lar Sant'Ana: “A privacidade para meu caráter é imperativo”, afirma. Sua colega, Anna Lyrs, de 91 anos, concorda com Capozzi: “Faço o que quero e ninguém se intromete”, completa. Ambos pagam R$ 15 mil para morar lá.

Mercado

A expansão desse conceito de moradia deve vir em breve, com condomínios voltados para o público acima dos 60 anos. Em 2018 a construtora Tecnisa deve lançar um empreendimento no Jardim das Perdizes, em São Paulo, com apartamentos equipados, área comum de clube, enfermeiro de plantão e elevador com espaço para maca visando a classe média alta. “No nosso empreendimento ele está na casa dele. De porta trancada. Quem quiser entrar vai ter que bater”, diz Joseph Meyer, presidente da construtora. Para quem se interessar por morar sozinho na terceira idade, algumas observações são importantes na hora da decisão. Segundo Rosaria Ono, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU), cômodos como o banheiro e a cozinha devem ter uma atenção especial, com barras e piso antiderrapante: “As edificações antigas não pensavam nessas questões. O desafio é criar ambientes que possam ser usados por jovens e idosos”, explica. 

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Os modelos de condomínios podem atingir uma parcela maior da população (mais velha) brasileira, pois é mais tradicional
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Edgar Werblowsky, da Aging Free Fair

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