TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Mais humano, serviço de Home Care cresce

Clínicas especializadas no País chegam a 392, mas relação com plano de saúde ainda é desafio

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2018 | 05h49

Depois de um ano e três meses acompanhando a mulher todos os dias no hospital, o advogado Paulo Maia, de 75 anos, recebeu a indicação médica de que ela poderia continuar internada, mas em casa. Há cinco anos, um dos quartos do casal foi praticamente transformado em uma unidade hospitalar, com cama, equipamentos e toda uma equipe de profissionais que cuida de Rosa, de 72 anos, 24 horas. 

Em seis anos, o número de estabelecimentos que prestam serviço de home care (atendimento domiciliar), como o que atende Rosa, quase triplicou no País. Segundo boletim econômico da Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (Fehoesp), o Brasil tinha 392 dessas clínicas no ano passado - eram 138, em 2011. Em apenas um ano, o crescimento foi de 35% enquanto os outros serviços da saúde tiveram um aumento de apenas 5%.

Para Yussif Ali Mere Júnior, presidente da Fehoesp, esse serviço destoa e cresce mais do que o restante por causa do envelhecimento populacional, que demanda novos tipos de cuidado na saúde, e também pelo aumento do número de planos que oferecem a cobertura do home care. “Os convênios tinham, e alguns ainda têm, resistência ao tratamento domiciliar. Mas muitos perceberam que, além de proporcionar um cuidado mais humanizado ao paciente, também sai mais barato do que manter a internação”, diz. 

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Segundo Maia, como sua mulher tinha quadro de saúde estável, a internação domiciliar era a opção mais econômica para o plano de saúde. “Ela teve um AVC (acidente vascular cerebral) hemorrágico, até hoje não fala, não se mexe, se alimenta por sonda. Não fosse o home care, ela ainda estaria no hospital. Para nós da família, e também para ela, é muito melhor que esteja em casa, é muito mais confortável”, afirma. 

Cancelamento

Apesar de Rosa ser totalmente dependente dos cuidados médicos que recebe em casa, Maia diz que o plano já tentou duas vezes cancelar a cobertura do home care. A família teve de recorrer à Justiça e ganhou. “Se a gente não ganhasse, ela teria ficado no hospital durante todo esse tempo. Os cuidados com ela são os de um hospital. Ela se alimenta por sonda, tem cama especial, monitoramento por equipamentos 24 horas. Não são cuidados que nós da família podemos dar”, explica o marido.

Embora não esteja listado no rol de cobertura obrigatória dos planos de saúde, o serviço de home care tem sido cada vez mais alvo de demandas na Justiça - 90% com decisões favoráveis aos pacientes, segundo levantamento feito nas ações que tramitavam no Tribunal de Justiça de São Paulo - e de reclamações na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). A procura da população também fez crescer a oferta de planos que oferecem a cobertura como um diferencial. 

A jornalista Karin Faria, de 49 anos, teve de recorrer à Justiça para conseguir que o plano cobrisse o atendimento domiciliar ao seu filho Miguel, hoje com 14 anos. Aos 8 meses de idade, ele foi diagnosticado com a Síndrome de West (uma condição epiléptica severa), que prejudica o desenvolvimento da fala e dos movimentos corporais. “Há alguns anos, uma criança com o perfil do Miguel estaria destinada a viver para sempre em uma UTI. Lutamos muito para que ele pudesse ficar em casa, porque o ambiente doméstico traz muito mais qualidade de vida para a criança”, conta. 

Além de o hospital trazer mais propensão a infecções, Karin diz que traz impactos psicológicos para o filho e a família. “Toda vez que ele ficava internado na UTI, nós víamos crianças chorando de dor, morrendo. Isso causa um dano psíquico para nós e para ele.” 

Com o tratamento domiciliar, Miguel também tem um quarto como o de qualquer outra criança, com brinquedos, paredes coloridas e cama comum. "Nossa preocupação era de que ele não conseguisse distinguir a casa do hospital. Por isso, fizemos questão de manter o quarto dele como o de um menino", conta a mãe.

A clínica Dal Ben, que atende Miguel, tem cerca de 200 pacientes e mais de 80% deles têm os serviços cobertos pelos planos de saúde. “São vários os tipos de atendimento, para alguns é a internação domiciliar, monitoramento. Mas também há situações mais simples, como a administração de medicamentos por via intravenosa, passagem de sonda ou cateter, curativos”, conta Luiza Dal Ben, sócia da clínica.

Crescimento

A Fehoesp projeta que o número de estabelecimentos com esse serviço continue crescendo nos próximos anos pela popularização do home care e também pela maior facilidade na contratação de profissionais com as mudanças trazidas pela reforma trabalhista - as clínicas poderão contratar profissionais por menos horas ou fazer contratos mais flexíveis.

A flexibilização na contratação preocupa a família dos pacientes atendidos por home care por conta da rotatividade dos profissionais dentro de casa. Luiza diz que na sua clínica todo o quadro é contratado diretamente e recebem treinamento e orientação. “As competências técnicas são fáceis de ser ensinadas, mas o mais importante é que tenham habilidades sociais para ajudar o paciente e as famílias em um momento extremamente difícil. O profissional passa a noite nessa casa, é preciso criar um vínculo.”

A demanda pelo serviço também levou o mercado a diversificar estratégias. Consultas médicas e chamadas emergenciais já podem ser feitas por aplicativos. Hiromi Okada, de 82 anos, sofreu uma queda há dois anos e após um mês internada teve complicações de saúde. Ao ter alta médica, o próprio convênio recomendou à família os serviços de homecare da Easy Care Saúde, um aplicativo.

Em novembro, Hiromi teve um infarto e passou a ser assistida 24 horas. A sala de casa foi transformada em um quarto de hospital e ela tem sempre enfermeiras para monitorá-la. Emi Okada, de 47 anos, conta que, apesar de não conseguir mais se comunicar, a mãe aparenta muito mais tranquilidade quando está em casa. "A sala tem uma janela bem grande que deixamos aberta para ela tomar sol e vento. Vejo como o rosto dela muda", diz.

Com o pai também idoso, Emi diz estar aliviada que a mãe possa ser cuidada em casa. "Para ele é dolorido e de difícil compreensão ver que ela perdeu a autonomia. Mas, quando ele ia ao hospital todos os dias para visitá-la, era ainda mais difícil. Agora, eles estão juntos em casa como sempre ficaram". 

Indicação médica e economia são fatores-chave

As entidades que representam os planos de saúde ressaltam que o pagamento dos serviços de home care não é obrigatório e ele é ofertado por alguns convênios dentro de contratos específicos. Segundo elas, as condições para a oferta ainda são incertas, especialmente em relação ao tempo de utilização, o que dificulta a ampliação da cobertura. 

José Cechin, diretor executivo da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), diz que, quando há indicação médica para a continuação dos cuidados em casa e essa situação representa uma economia em relação à internação, os planos cobrem a assistência. “Há uma tendência à desospitalização sempre que a atenção domiciliar for mais econômica. Não seria racional do plano negar essa assistência”, diz.

A Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge) também avalia que o envelhecimento da população contribui para o crescimento da oferta de home care. 

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