Arquivo Pessoal/AP
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Médicos cultivam órgão para transplante no braço de paciente

Traqueia de doador morto foi implantada no braço de mulher belga antes de ser colocada na garganta

Associated Press,

14 Janeiro 2010 | 17h09

Por mais de 25 anos, Linda De Croock viveu com a dor constante de um acidente automobilístico que esmagou sua traqueia. Hoje, ela tem uma nova, depois que cirurgiões implantaram a traqueia de um homem morto em seu braço, onde ela cresceu novos tecidos, antes de transferi-la para sua garganta. O modo encontrado pelos médicos para treinar o corpo da paciente para aceitar o tecido do doador poderá oferecer novos métodos para fazer crescer, ou nutrir, órgãos dentro dos pacientes, dizem especialistas.

 

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De Croock diz que a técnica mudou sua vida. Ela não precisa mais tomar drogas contra a rejeição.

"A vida antes de meu transplante estava se tornando menos suportável a cada dia, com dor e coceira o tempo todo na garganta e na traqueia", disse a belga de 54 anos.

 

Médicos do Hospital Universitário de Leuven, na Bélgica, implantaram a traqueia do doador no barco da paciente num primeiro passo para induzir o corpo a aceitar o órgão e passar a alimentá-lo com sangue.

 

Cerca de dez meses depois, quando tecido suficiente já havia crescido ao redor do órgão para permitir que ela parasse de tomar os remédios, a traqueia foi transferida para o lugar certo. Detalhes do caso são descritos na edição desta quinta-feira, 14, do New England Journal of Medicine.

 

Durante anos, Linda viveu com a dor e o desconforto de ter dois stents de metal mantendo sua traqueia aberta. Em busca de uma solução mais eficaz, ela encontrou, na internet, o médico Pierre Delaere, que já havia realizado procedimentos semelhantes, mas em menor escala, para vítimas de câncer.

 

Assim que os médicos conseguiram uma traqueia adequada, embrulharam-na em tecido de Linda e implantaram-na no antebraço esquerdo. Ali, conectaram uma grande artéria, para restabelecer o fluxo sanguíneo.

 

Linda disse que ter a traqueia no braço foi desconfortável. "Estava empacotada em gaze, e todo o braço estava engessado", disse ela. "Não era como se eu pudesse descascar batatas".

 

Por oito meses, ela tomou drogas para impedir que seu sistema imunológico rejeitasse o novo órgão.

 

Embora parte do tecido do doador original permaneça, uma quantia suficiente de tecido da própria Linda agora reveste o órgão, a ponto de ela não precisar mais de remédios contra a rejeição.

 

Um especialista em engenharia de tecidos da Universidade Bond, na Austrália, e que não tomou parte no caso de Linda De Croock, Patrick Warnke, disse que esta é a primeira vez que um órgão do tamanho de uma traqueia foi alimentado dentro do corpo do receptor antes do transplante.

 

Warnke acredita que poderá ser possível, no futuro, cultivar partes de órgãos, como um pedaço do pulmão, dentro dos pacientes.

 

No ano passado, médicos europeus anunciaram ter revestido a traqueia de um doador em tecido do receptor cultivado a partir de células-tronco, eliminando o uso de drogas contra rejeição.

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