Médicos se preparam para cuidar dos bebês infectados pelo zika nos EUA

Primeiros grupos de recém-nascidos expostos ao vírus começam a nascer em Porto Rico

Perri Klass, The New York Times

06 Outubro 2016 | 12h06

Em setembro, começou a nascer o primeiro grupo de bebês em Porto Rico expostos ao vírus zika durante o primeiro trimestre de gestação. Os pediatras não sabem o que esperar.

"Não tem nada a ver com outro surto ou epidemia", diz o Dr. Fernando Ysern, pediatra em Caguas, Porto Rico, que é o presidente da divisão porto-riquenha da Academia Americana de Pediatria (AAP).

No campo da pediatria, o zika paira como uma espécie de vírus do desenvolvimento do juízo final, mirando a vulnerabilidade da formação inicial do cérebro, atacando a base neurológica do potencial humano. Enquanto Porto Rico, um território dos Estados Unidos, vai experimentar a primeira onda de crianças atacadas pelo zika, o resto dos EUA se prepara para a disseminação do vírus.

Há poucos dias, o Departamento de Saúde de Porto Rico divulgou 22.358 casos de exposição ao zika, incluindo 1.871 mulheres grávidas. As estatísticas do Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC na sigla em inglês) dos EUA, de 15 de setembro, listam 1.348 grávidas com "algum indício laboratorial de possível infecção do vírus zika" nos territórios norte-americanos e 749 nos Estados Unidos.

A exposição ao zika durante a gravidez não significa que a criança certamente nascerá com microcefalia, uma cabeça ou cérebro extraordinariamente pequeno, ou que tenha problemas de saúde ligados ao vírus. Mas o risco é real, e os pediatras estão tentando determinar como acompanhar essas crianças e como cuidar das que têm problemas. Embora ninguém saiba o risco verdadeiro da exposição de um feto ao vírus zika, estudos sugerem que entre um e 13 por cento das mulheres infectadas no primeiro trimestre terão um filho com microcefalia, e um número maior poderia ter filhos com problemas de desenvolvimento mais sutis relacionados à exposição ao vírus no útero.

A Academia Americana de Pediatria (AAP) anunciou, em setembro, um subsídio de US$ 350 mil do Departamento de Saúde e Serviços Humanos para criar uma rede de pediatras preparados para lidar com uma geração de crianças com problemas de saúde ligados ao zika. Os bebês precisarão de cuidados médicos e, suas famílias, de suporte.

Mas como se preparar para um novo desafio clínico em evolução e ainda pobremente compreendido? Especialistas em pediatria se reuniram há pouco tempo para falar a esse respeito. A reunião foi convocada pelo CDC em colaboração com a AAP, e reuniu uma série de especialistas pediátricos, de neonatologia e neurologia, doenças infecciosas e de desenvolvimento comportamental, medicina de reabilitação, oftalmologia e ortopedia, entre outros.

Existe muita coisa que desconhecemos. O Dr. Peter Jay Hotez, reitor da Faculdade Nacional de Medicina Tropical, da Faculdade Baylor de Medicina, em Houston, afirma que várias perguntas precisam ser respondidas. Como o vírus provoca as lesões? Qual o espectro completo das lesões, da microcefalia, claramente visível, às mudanças neurológicas, menos visíveis. E o que acontece aos bebês expostos ao zika depois do nascimento, quando o cérebro ainda está se desenvolvendo?

A reunião produziu diretrizes temporárias, publicadas no Relatório Semanal de Morbidade e Mortalidade dos CDC. "Inicialmente nos CDC, nosso maior objetivo era garantir que mulheres grávidas não fossem infectadas pelo zika", diz a Dra. Sonja Rasmussen, pediatra e geneticista clínica que dirige a Divisão de Disseminação de Informação de Saúde Pública do órgão. "Essa reunião pretendia garantir que esses bebês tenham a melhor chance de atingir seu potencial máximo."

Para as crianças nascidas com microcefalia, cujo cérebro fetal foi claramente prejudicado pelo vírus, as recomendações se baseiam na experiência muito recente e em rápida evolução dos médicos no Brasil. Esses bebês correm o risco de sofrer convulsões, problemas de alimentação, articulações muito contraídas, problemas de tireoide, oculares e atraso no desenvolvimento. Eles precisam de exames neurológicos frequentes, exames de audição, visão, hormonais e muito suporte médico.

"Se você vir uma criança que tenha microcefalia importante, você conhece a questão", diz a Dra. Fan Tait, neurologista pediátrica que é uma das diretoras associadas da AAP e participou da reunião.

Para oferecer bom atendimento a essas crianças, para apoiar suas famílias, é necessário contar com diversos especialistas, coordenação e um compromisso profundo com cuidados médicos complexos. Esse tipo de atendimento nem sempre está disponível, principalmente no caso de crianças de lares necessitados, e existe a preocupação de que o zika, a exemplo de muitas outras doenças, se comporte de modo diferente com ricos e pobres, com os segundos mais propensos à exposição, quer seja por viverem em situações menos protegidas ou por terem empregos que os mantenham ao ar livre.

"Ninguém tem realmente certeza da magnitude daquilo com que estamos lidando", afirma Fan.

E as crianças com cabeças de tamanho normal ao nascer e que foram expostas ao vírus, que ataca o cérebro em desenvolvimento? Sonja Rasmussen indagou: "A microcefalia é apenas a ponta do iceberg ou as crianças sem microcefalia ao nascer ficarão bem?" Que tipo de monitoração é necessário quando os bebês parecem normais?

É um equilíbrio delicado entre observar e esperar porque você não quer rotular crianças nem criar mais ansiedade para os pais, mas, por outro lado, os problemas menos visíveis de desenvolvimento são justamente aqueles que, segundo nossa experiência demonstra, um diagnóstico precoce atento pode fazer a diferença.

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