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Saúde

Fernando Reinach

Microcefalia que sempre existiu

Levei um susto. Nos EUA são reportados todos os anos 25 mil casos de microcefalia. Esse número é quase cinco vezes maior que o de casos suspeitos que vêm se acumulando no Brasil desde que surgiu a suspeita de que o zika vírus possa estar envolvido. 

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Fernando Reinach

06 Fevereiro 2016 | 03h00

Nos EUA, com uma população de aproximadamente 320 milhões, nascem todos os anos 3,9 milhões de crianças. Como 25 mil delas são consideradas microcéfalas, isso quer dizer que 0,6% (seis em cada mil) recebem essa classificação. Usando esses números como base, qual deveria ser o número de crianças nascidas com microcefalia no Brasil?

No Brasil, a população é de quase 204 milhões, e nascem todos os anos 3 milhões de crianças. Se imaginarmos que a frequência de microcéfalos por aqui é semelhante à dos EUA (0,6%), devem nascer todos os anos 19.250 crianças com microcefalia no País. Mas o Ministério da Saúde informa que em 2014 foram notificados somente 147 casos. Onde estariam os outros 19.100?

O número de microcéfalos depende da definição adotada para classificar a criança como microcéfala. Nos EUA é considerada microcéfala toda criança cujo diâmetro da cabeça está a dois desvios-padrão da média. Crianças nascem com diversos tamanhos de cabeça, desde as muito grandes (macrocéfalos) até as muito pequenas (microcéfalos). Se fizermos um gráfico da circunferência da cabeça das crianças (na horizontal), versus a frequência com que cada medida acontece (na vertical), vamos obter a forma aproximada de um sino (veja gráfico ao lado). Com base nesse gráfico é possível calcular o valor médio da circunferência da cabeça de todas as crianças (o centro do sino) e também quais estão a uma certa distância desse valor médio. Se a curva for normal, por definição o grupo de pessoas que constituem os 2,1% com as cabeças menores estão distantes dois desvios-padrão da média (a borda esquerda do sino). O 0,1% com cabeça ainda menor está distantes três desvios-padrão da média.

Por esse critério, sempre vai existir a mesma proporção de crianças microcéfalas. É o mesmo que você decidir que os alunos a serem reprovados serão sempre os três piores da classe. Mesmo que toda a classe vá muito bem, e os três priores tenham nota nove, eles, por definição, serão reprovados.

No Brasil a definição de microcéfalo é igual à dos EUA. São consideradas microcéfalas todas as crianças com perímetro craniano menor que 33 centímetros. Esse valor corresponde exatamente aos dois desvios-padrão adotados nos EUA (isso está explicado no Anexo 1 da Nota Informativa 01/2015 - “COES Microcefalia”, de 17 de novembro de 2015, publicada pelo Ministério da Saúde). Como os 33 centímetros são mais restritivos que os 34 anteriores, por definição, mais de 0,6% de todas as crianças nascidas deveria ser classificada como microcéfalas. Ou seja, deveríamos ter todos os anos pelo menos 19.250 crianças assim classificadas.

É importante entender a razão para os sistemas de saúde de todo o mundo usarem esse tipo de critério. Da mesma maneira que toda criança muito baixa, muito leve, ou muito pesada, merece exames adicionais para identificar a causa desse desvio da média, toda criança com diâmetro abaixo de 33 centímetros deve ser examinada para se verificar a causa desse desvio. E, quando examinadas, muitas delas são absolutamente normais e saudáveis, tanto aqui quanto nos EUA. É exatamente isso que está acontecendo agora. Dos mais de 4 mil microcéfalos identificados nos últimos meses, quase 800 já foram examinados e aproximadamente 75% deles são crianças normais.

Mas se é assim que os microcéfalos devem ser selecionados, por que razão no Brasil eles não foram identificados nos últimos anos? Sabemos que eles existem, muitos saudáveis e alguns doentes. Essas crianças deveriam ter sido identificadas e examinadas com cuidado. Mas não foram, porque a notificação não era obrigatória. Elas seguramente sempre existiram, mas não existem nas estatísticas do Sistema Único de Saúde (SUS). Agora com a notificação obrigatória, e o pânico causado pelo zika, elas estão “aparecendo”. Esse aparecimento súbito pode ser real, e causado pelo zika, ou pode ser uma anomalia causada pela subnotificação no Brasil.

É o pequeno número de casos nos últimos anos que faz com que fique difícil saber se o número de microcéfalos realmente está crescendo por causa do zika. É também por esse motivo que os epidemiologistas da OMS olham com desconfiança a certeza apregoada por nosso ministro da Saúde, de que o zika é a causa desses novos casos de microcefalia. O zika pode ser a causa de um aumento dos casos, mas a incapacidade do SUS de identificar os registros de microcefalia nos últimos anos vai dificultar a solução desse mistério.

MAIS INFORMAÇÕES: PRACTICE PARAMETER: EVALUATION OF THE CHILD WITH MICROCEPHALY (AN EVIDENCE BASED REVIEW). NEUROLOGY VOL. 73 PAG. 887 2009

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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