JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Ministério da Saúde lança diretrizes contra manobras agressivas em partos

Documento recomenda mais de 200 procedimentos para melhorar a qualidade no atendimento e aliviar dor de gestantes

Lígia Formenti e Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

06 Março 2017 | 03h00

BRASÍLIA E SÃO PAULO - O Ministério da Saúde lança nesta semana uma estratégia para reduzir a prática desnecessária de procedimentos durante o parto e melhorar a qualidade de atendimento. O documento, ao qual o Estado teve acesso, traz mais de 200 recomendações, que vão desde técnicas para aliviar a dor, como massagens e banhos quentes, até a contraindicação da manobra Kristeller, em que o útero da mulher é pressionado para tentar auxiliar a expulsão. 

“Além de não ser eficaz, a manobra pode provocar sérios danos para a mulher e para o bebê, como rupturas de costelas e hemorragias”, afirma a enfermeira obstétrica do hospital de Belo Horizonte Sofia Feldman, Vera Bonazzi.

O novo protocolo, batizado de Diretriz do Parto Normal, é resultado de discussões realizadas em 2015 por integrantes de associações médicas e representantes da sociedade civil. Seus autores afirmam que no Brasil algumas técnicas, que deveriam ser usadas apenas em alguns casos, tornaram-se rotina. É o caso, por exemplo, da episiotomia, corte feito na região do períneo. Em tese, a técnica facilitaria a expulsão do bebê no momento do parto e deveria ser usada em situações específicas, mas em muitos hospitais é feita em quase todas as pacientes.

“Agora, o desafio é garantir que o texto seja colocado em prática. Há ainda muita resistência de parte dos profissionais de saúde”,afirma Fátima Sampaio, do Conselho Federal de Enfermagem.

Sequelas. Com apenas 20 anos e prestes a ganhar o primeiro filho, a dona de casa Adrianne Gonçalves da Silva Braz nem sabia o que era manobra de Kristeller nem episiotomia. Foi submetida aos dois sem ser consultada pela equipe médica e, hoje, dois anos e meio depois do nascimento de Théo, luta para tentar minimizar as sequelas neurológicas causadas ao bebê pela manobra.

“O parto estava evoluindo superbem quando o anestesista, com uma cara de que queria ir embora logo, empurrou com tudo minha barriga para o bebê sair logo. A barriga ficou preta no dia seguinte, mas eu não imaginei que teria consequências tao graves”, conta Adrianne.

Aos seis dias de vida, Théo começou a ter convulsões. Ele foi internado e os médicos descobriram que o então recém-nascido havia sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC). “Ele ficou internado um mês e meio, boa parte na UTI. Sobreviveu, mas ficou com atraso na parte cognitiva e motora. Ele tem dois anos e meio e não fala nada, não anda e tem crises epiléticas”, diz a mãe.

Adrianne e o marido procuraram diversos especialistas para descobrir a causa exata do AVCde Théo. “Hoje, depois de muita investigação, a neurologista dele acredita que tudo isso ocorreu por causa do trauma que ele sofreu no momento da manobra de Kristeller”, afirma a mãe.

A contraindicação da manobra é considerada um dos grandes avanços do documento. “Ela é considerada como uma violência obstétrica. Há inúmeros relatos de casos de mulheres que ficam contundidas, com hemorragias e outros graves problemas em decorrência dessa prática, que já foi desaconselhada pela Organização Mundial da Saúde”, afirma a advogada Priscila Cavalcanti de Albuquerque Carvalho, especialista em direito sexuais e reprodutivos da mulher.

Diretrizes. Também estão na lista de práticas que vinham sendo usadas incorretamente, como rotina, a retirada dos pelos pubianos e a lavagem intestinal que precede o parto. “A mulher é a protagonista. Precisamos abandonar o intervencionismo e devolver à mulher a confiança perdida ao longo desses anos”, afirma o professor da Universidade Federal da Paraíba, Roberto Magliano de Morais. 

Não há estatísticas sobre o número de procedimentos feitos desnecessariamente. Vera, Fátima e Morais, porém, sustentam que os exageros ocorrem com frequência. “Hoje todas as técnicas usadas ficam a critério do profissional. O grande mérito da diretriz é que ela propicia a uniformização das práticas”, diz Vera.

Outro ponto polêmico, o parto domiciliar, ficou em aberto, mas com uma brecha. Afirma que entre mulheres que já tiveram filhos, não apresentam riscos de parto com complicações e têm condições de ter acesso a um hospital rapidamente em caso de complicações, a opção “não deve ser desencorajada”. O Conselho Federal de Medicina é contrário.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

06 Março 2017 | 03h01

SÃO PAULO - Depois de duas experiências negativas, na primeira e na segunda gestações, e de ter tido uma vivência positiva apenas na terceira, Mariana Reis de Sousa Ferreira, de 28 anos, que é formada em Turismo, passou a trabalhar como doula e consultora de aleitamento materno de duas clínicas especializadas em parto humanizado, a Commadre e a Iluminar.

Em todas suas gestações, Mariana sempre desejou que o parto fosse o mais natural possível, sem intervenções desnecessárias. Mas já na primeira experiência, há nove anos, foi submetida a uma episiotomia sem sequer ter sido comunicada.

“Eu já estava com muita dilatação. Minha filha estava prestes a sair e a enfermeira veio com uma agulha para anestesiar o local e me cortar. Eu perguntei o que ela ia fazer e ela disse para eu não me preocupar porque ela sabia o que estava fazendo. Só depois de me cortarem, quando foram suturar o local, falaram que tinham feito o corte. Mas tenho certeza que não tinha nenhuma necessidade desse procedimento. Meu bebê não era grande”, diz.

A convicção de Mariana veio das experiências seguintes. Em sua terceira gestação, em que ela conseguiu um parto totalmente natural, o bebê nasceu maior do que o primeiro e, mesmo assim, sem necessidade de nenhuma episiotomia. “Mesmo quando há laceração natural na região, é muito menos agressivo do que o corte”, diz.

Na avaliação de Mariana, em sua segunda gestação o problema foi ela ter sido praticamente obrigada a passar por uma cesárea desnecessária.

“Eu estava com 39 semanas ainda, induziram o parto e o obstetra não esperou nem meia hora e já me levou para o centro cirúrgico dizendo que era melhor fazer para o bebê não correr risco. Era um sábado, parecia que ele queria terminar logo o serviço”, conta.

“Foi somente depois do meu terceiro parto, quando finalmente eu consegui ser respeitada e tive o auxílio de uma doula, que eu resolvi que era isso que eu queria fazer”, conta ela, que antes trabalhava em um escritório de advocacia.

Para Mariana, não bastam regras do Ministério da Saúde para coibir práticas de violência obstétrica. “É preciso também que as gestantes denunciem os profissionais que agem indevidamente. Só assim vamos conseguir acabar com essa cultura”, defende.

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.