Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Morte por suposta reação à vacina foi causada pela febre amarela

Pesquisa da USP mostrou que idosa já havia contraído o vírus quando recebeu dose; imunizante leva 10 dias para ter efeito

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

06 Março 2018 | 21h25

SÃO PAULO - Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) constatou que um dos casos de morte por reação à vacina contra a febre amarela, que era investigado, era, na verdade, mais um registro de óbito por causa da doença. A paciente, uma mulher de 76 anos de Ibiúna, no interior paulista, já estava infectada pelo vírus quando foi vacinada.

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O grupo, formado por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e da Faculdade de Medicina da USP, está fazendo a confirmação de casos de febre amarela por meio de análises de autópsias realizadas pelo Serviço de Verificação de Óbitos da Capital (SVOC).

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"A paciente tomou a vacina e, no dia seguinte, apresentou os sintomas, mas ela já tinha sido infectada pelo vírus. A vacina demora dez dias para começar a proteger contra o vírus. Se ela tivesse se vacinado antes, estaria viva", afirma Paolo Zanotto, professor do Departamento de Microbiologia do ICB da USP.

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Em todo o Estado, de acordo com a Secretaria de Estado da Saúde, foram registrados três casos de morte por reação à vacina. O caso dessa paciente estava em investigação.

Segundo Zanotto, a equipe também está verificando a atuação do vírus em outros órgãos. "Estamos tentando ver o que está acontecendo no cérebro, coração, pulmão, baço, pâncreas, rim e fígado. A maior quantidade de vírus é encontrada no fígado. Este é um estudo para verificar e descrever como o vírus muda dentro desses órgãos e que tipo de lesão está sendo causada."

Os pesquisadores contam com um parque de equipamentos de imagem, com aparelhos de ressonância magnética, tomografia computadorizada, ultrassonografia e raio X para fazer as análises. Nos últimos dois meses, quase 70 autópsias de pacientes com suspeita de ter contraído a doença foram analisadas pela equipe.

Segundo o diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP Paulo Saldiva, que é professor de patologia e integra o grupo, a equipe começou um projeto com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) há quatro anos com o objetivo de desenvolver técnicas menos invasivas para realizar autópsias, utilizando equipamentos de ponta, como o primeiro equipamento de ressonância magnética para corpo inteiro com campo de 7 Tesla da América Latina, chamado Magnetom 7T MRI.

"Agora, com esse surto, começamos a pesquisar a febre amarela. Uma aplicação da autópsia é que a gente detecta o vírus da vacina e da forma silvestre", explica Saldiva. "No caso da paciente, quem estava destruindo o fígado era o vírus da febre amarela."

Saldiva diz que a equipe também está utilizando um ultrassom portátil e que o grupo discute a possibilidade de utilizar a técnica para analisar casos suspeitos de mortes de macacos por infecção pelo vírus.

"Ao colher a amostra, poderíamos saber a velocidade de progressão da doença", afirma o professor.

O método também poderia ser utilizado para comparar o resultado com o de uma análise convencional e para evitar o transporte de todo o corpo do animal para o local de análise.

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