‘Mulher tem o dever de decidir'

Professora universitária, de 40 anos, conta porque decidiu não abortar, mas defende que mulheres tenham a chance de escolher ou não pela continuidade da gravidez. 

Mônica Bernardes, Especial para O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2016 | 05h00

"Era 2001. Eu tinha pouco mais de 20 anos e fui estuprada por um colega de faculdade, no Recife. Sim, eu o achava interessante e por duas vezes deixei que me beijasse. Um dia, em uma viagem para um congresso estudantil, em Brasília, adormeci – ainda na festa – depois de beber além da conta. 

Acordei atordoada, no quarto de um motel, sem saber como havia chegado lá. Estava nua e esse meu ‘amigo’ estava em cima de mim, me penetrando. Sentia uma tontura absurda e uma dor forte na vagina. Não queria sexo com ele. Não queria com ninguém. Era virgem. Aos 20 anos, por opção, era virgem. Tentei afastá-lo. Tentei gritar. Tentei evitar que aquilo continuasse a todo custo. Não consegui.

Ele me bateu, me ameaçou e avisou que poderia me matar ali mesmo e ninguém saberia o que tinha acontecido. Estava a mais de 3 mil quilômetros de casa. Tive medo, vergonha e raiva. Ele me deixou sozinha depois de ter se ‘fartado’. Na época, não existia celular disponível como hoje.

Não tinha a quem recorrer. Foi uma camareira do motel, que ouviu meu choro e chamou o gerente. Ele e outras duas funcionárias bateram no quarto e perguntaram se precisava de ajuda. Abri e desabei no choro. Eles me ajudaram. Perguntaram se queria que a polícia fosse acionada. Disse não, estava apavorada.

Pensava no que meus pais pensariam. Em como meus amigos me veriam depois disso.

Pedi que me levassem para o local onde estávamos hospedados. Quando cheguei lá, conversei com duas amigas que estranharam minha ausência. Com a ajuda delas, voltei para casa no mesmo dia, de avião. Não consegui falar a verdade aos meus pais por quase dois meses. Abandonei as aulas.

Esse ‘amigo’ levava a vida normalmente. Continuava ‘arrasando’ corações pela faculdade. Quase dois meses depois, descobri que estava grávida e me desesperei. Contei para duas amigas, as mesmas que me auxiliaram no dia do estupro. Uma delas disse que conhecia uma clínica de aborto. Chorei muito. Tive mais medo, mais raiva e mais vergonha. 

Mas decidi que precisava contar aos meus pais. Eles ficaram revoltados. Lembro até hoje as palavras do meu pai. ‘Filha, você sempre foi uma pessoa responsável e boa. Você não teve culpa, assim como essa criança também não. Esse monstro não merece sua dor nem a morte da criança. Se quiser abortar, estarei ao seu lado, mas se quiser ter o filho, serei o avô mais presente e feliz do mundo.’

Minha mãe e eu só chorávamos. Uma semana depois, disse a eles que teria o bebê. Meu filho não sabe que foi fruto de estupro. Para ele, seu pai o abandonou. Não quero que ele se sinta sujo, fruto de uma violência. Também jamais deixei que esse monstro soubesse que eu havia engravidado. 

O filho é meu e o amo muito. E sei que sem o apoio, respeito e carinho que recebi de meus pais, família e amigos, não teria conseguido. Durante todos esses anos, diferentemente do que temia, não fui julgada ou apontada como ‘fácil’. Pelo menos não por quem tinha importância para mim. 

Mas nem todo mundo tem esta felicidade. Não sou contra o aborto. Cada mulher tem o direito e o dever de escolher. Fiz a minha escolha.”

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