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Denis Balibouse/Reuters

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Américas terão até 4 milhões de casos de zika em 2016, estima Opas

Organização Pan-Americana de Saúde acredita que vírus sairá das Américas; lideranças globais fazem reunião sobre vírus nesta quinta

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Jamil Chade,
O Estado de S. Paulo

28 Janeiro 2016 | 11h45

GENEBRA - Com meses de atraso e sob pressão, a Organização Mundial da Saúde (OMS) soou o alerta sobre o zika vírus, apontou para uma proliferação “explosiva” e pode declarar emergência internacional no início da semana que vem. No total, 4 milhões de pessoas podem ser contaminadas nas Américas ainda neste ano, de acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas).

A diretora da entidade, Margaret Chan, anunciou a convocação de uma reunião de especialistas para segunda-feira com a meta de definir uma estratégia e sinalização de mudança de posição de sua entidade. Caso seja declarado como emergência, o surto seria apenas o quarto na história a ganhar tal status – após H1N1, pólio e ebola. 

O Estado apurou, em Brasília, que a situação preocupa o Itamaraty e já estaria havendo uma pressão do governo brasileiro para que, em caso de emissão de um alerta mundial, não seja incluída a recomendação para que as pessoas não visitem o Brasil durante os próximos meses (com carnaval e Olimpíada no Rio). Procurado oficialmente, o Ministério das Relações Exteriores não se pronunciou. Mas, em Genebra, a OMS também já se mobilizava para tentar blindar o Brasil de um impacto econômico internacional negativo, impedindo restrições de viagens ou de comércio.

Mudança de tom. Depois de meses em silêncio, Margaret Chan adotou, nesta quinta-feira, 28, um tom forte sobre o surto. “Há uma proliferação explosiva. Estamos profundamente preocupados. O nível de alerta é extremamente alto, principalmente diante da possibilidade de uma ligação com microcefalia. A relação ainda não foi estabelecida. Mas há uma forte suspeita e essa relação mudou o perfil de risco. Estamos falando de proporções alarmantes”, disse. “O nível de preocupação é alto, assim como a incerteza. Precisamos rapidamente de respostas.”

Agora, os cientistas da OMS vão examinar a progressão do vírus e determinar o que deve ser feito. Além de declarar a emergência, eles podem exigir que governos de todo o mundo coloquem medidas para identificar o vírus e recomendações sobre viagens poderão ser realizadas. Outra medida que será anunciada é sobre os setores de pesquisa que terão prioridade. 

Proteção. Ao Estado, Margaret explicou que um dos principais motivos da convocação da reunião é a proliferação de recomendações que governos começam a fazer sobre viajar ou não ao Brasil. A estratégia de evitar um isolamento do País foi revelada pela alta cúpula da agência da ONU com exclusividade à reportagem, depois de receber sinais concretos de que governos na Europa e América do Norte estariam preparando recomendações mais duras.

“As respostas precisam ser proporcionais”, disse, afastando qualquer possibilidade de uma recomendação para que turistas evitem o Brasil. “Como é que faríamos isso? Teríamos de adotar até restrições internas de viagens”, disse.

Para ela, uma das principais funções da reunião de segunda-feira é a de padronizar as recomendações, justamente para evitar “medidas excessivas e inapropriadas”. “Diante de tanta incerteza, temos de ter cuidado com as recomendações”, disse. 

Nos Estados Unidos, as mulheres grávidas ou que estiverem pensando em engravidar já são orientadas a adiar viagens ao Brasil. O diretor do Departamento de Surtos da OMS, Bruce Aylward, que coordenou o combate ao ebola, prefere não se pronunciar a respeito. “A decisão por enquanto é de cada país”, disse Aylward. “Obviamente, todas precisam agir com cautela, da mesma forma que deveriam pensar na dengue”, ressaltou.

Demora. Para cientistas e ONGs, a OMS está repetindo com o Brasil os mesmos erros no combate ao ebola. No caso da doença na África, a entidade só reagiu em março de 2014, quatro meses depois da descoberta do surto. Para parar a doença, a comunidade internacional gastou US$ 1,8 bilhão. 

Para Lawrence Gostin, da Universidade Georgetown University, a demora da OMS pode ainda trazer consequências. “Às vésperas dos Jogos Olímpicos no Rio, esse vírus certamente tem um potencial de pandemia”, alertou. “A resposta tem sido fraca e tarde demais.”

Aylward rejeitou qualquer crítica. “A palavra certa para usarmos é ‘preocupação’. Dizer que estamos alarmados não seria correto”, insistiu. Ele se recusou até mesmo a reconhecer os números da Organização Pan-americana de Saúde (Opas), que declarou que sua previsão era de que o vírus atingiria 4 milhões de pessoas até o fim do ano apenas nas Américas. “Nós não falamos isso. No ano que vem, o número do Brasil vai cair. Houve uma transmissão intensa em 2015 e a tendência agora é de cair por ter um número menor de pessoas vulneráveis ao vírus”, contestou. 

Já na avaliação do diretor da Opas, Marcos Espinal, a proliferação “vai continuar, vai sair das Américas e vai para todos os lugares”. “Estimamos até 4 milhões de casos até o fim do ano.”

Sylvan Aldighieri, outro especialista da Opas, explicou que o cálculo foi feito depois que 2 milhões de pessoas foram afetadas pela dengue em 2015 na região. “No caso do zika, sem imunidade para cerca de 500 milhões de pessoas, acreditamos que teremos entre 3 e 4 milhões de afetados”, disse. 

Microcefalia. A OMS adotou uma postura de dúvida em relação aos dados apresentados pelo Brasil nesta quinta, questionando a “causalidade” entre o vírus zika e a microcefalia. “A relação é muito forte para nós”, rebateu Claudio Maierovitch, diretor de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, que participou da reunião com a OMS por meio de videoconferência. “Tínhamos 10 a 12 casos de microcefalia por ano em Pernambuco. Em outubro, já tínhamos 28 casos em dois meses. E tudo foi informado para a OMS.” 

Apesar disso, Bruce Aylward, chefe do Departamento de Surtos da OMS, se negou a confirmar a tese. “O que temos hoje é uma associação, não a causa”, insistiu. Para ele, serão necessários de seis a nove meses ainda para determinar se existe de fato uma relação real entre o zika e os casos de microcefalia.

Nesta quinta, Aylward chegou a colocar em questão os números apresentados pelo Brasil. “Não sei se são nessa escala tão gigante”, disse. O Ministério da Saúde reforçou, porém, que testes clínicos derão positivo para zika em seis crianças nascidas com microcefalia. “E tivemos registros de algumas crianças mortas com microcefalia. Até agora, confirmamos 12 desses casos. A experiência mostra que é difícil fazer os testes”, disse Maierovitch.

Segundo ele, os casos de zika vão chegar a “todo o País”. “Os Estados que ainda não nos informaram casos, certamente vão nos informar”, ressaltou na videoconferência. 

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