Laitr Keiows / Creative Commons
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Mutirão de catarata deixa pacientes cegos em São Bernardo

Dos 27 pacientes submetidos à operação, 21 apresentaram quadro de infecção e parte perdeu a visão; secretaria admite problema

Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

05 Fevereiro 2016 | 12h42

Atualizado às 22h12.

Um mutirão de cirurgias de cataratas no Hospital de Clínicas do Alvarenga, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, infectou 21 dos 27 pacientes que se submeteram ao procedimento. Dez das vítimas tiveram os globos oculares extraídos, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. Outros correm o risco de perder a visão. 

As operações foram realizadas no último sábado, 30. As reações nos pacientes começaram no dia seguinte. A dona de casa Genesil Koga, de 66 anos, teve febre, além de bastante inchaço no olho operado. Quando voltou ao médico que fez a cirurgia, ele aumentou a dose de remédios e a liberou novamente. Na clínica particular, o diagnóstico foi de infecção, com presença de bactéria, com risco de morte. A idosa passou por outra cirurgia às pressas. Não perdeu o olho, mas perdeu a visão. 

"Ela está muito aborrecida, sofreu com dores insuportáveis. Ela já não enxergava do olho direito antes e agora perdeu a visão do esquerdo. Para recuperar, o médico disse que ela deve precisar de um transplante de córnea", conta a advogada Letícia Kogo, de 35 anos, filha da paciente. Além de prejudicar Genesil, que faz aniversário nesta sexta-feira, 5, o problema atrapalhou a rotina da família. "Ela cuida do meu sobrinho de manhã e do meu filho à tarde." A família pretende entrar com uma ação judicial contra a Prefeitura de São Bernardo. 

Explicações. Odete Gialdi, secretária de Saúde da cidade, explicou que o episódio foi um "evento adverso" e disse já ter um "rigoroso processo de investigação em curso". Segundo a titular da pasta, as cirurgias são feitas por uma equipe terceirizada, que tem contrato com o município há dois anos. Esses funcionários usam o hospital da Prefeitura, mas equipamentos e insumos próprios.

Um laudo preliminar já indicou que a bactéria é do gênero Pseudomona, do tipo não resistente. "Essa bactéria não está presente na flora do hospital. Ela é sensível ao tratamento de qualquer tipo de antibiótico", afirmou Odete. De acordo com ela, há a possibilidade de a bactéria ter entrado em um remédio ou insumo usado na cirurgia.

Procurado pela reportagem, o Instituto de Oftalmologia da Baixada Santista, responsável pelos procedimentos, não se manifestou. Já o médico que fez as cirurgias disse que todas as explicações seriam dadas pela Secretaria de Saúde. 

A secretária ainda afirmou que foi dada toda a assistência às vítimas e aos familiares. Os outros seis pacientes que não apresentaram complicações também foram acompanhados. Houve, segundo ela, dificuldades de encaixar todos eles em outras unidades de atendimento. "E vamos oferecer a colocação de próteses a todos aqueles que perderam o globo ocular." A Prefeitura acrescentou que no ano passado houve 946 cirurgias de catarata sem registro de complicações. "Foi uma tragédia", disse Odete. 

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