Neurologista usa terapia com células-tronco em trauma medular

Em entrevista ao 'Estado', Carlos Lima diz que um paciente está prestes a recuperar a capacidade de andar

Herton Escobar, O Estado de S. Paulo

04 Abril 2009 | 21h52

O neurologista Carlos Lima, do Hospital Egas Moniz, oferece uma terapia experimental para recuperação de lesões medulares com base em injeções de células-tronco nervosas extraída do bulbo olfativo do próprio paciente, seguidas de uma fisioterapia diferenciada. Ele concedeu a seguinte entrevista ao Estado, por e-mail.

 

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Antes de qualquer coisa, como devo me referir ao que o senhor faz: Terapia? Terapia experimental? Ensaio clínico?

Terapia experimental. Também é realizado estudo idêntico na Colômbia, Grécia e Japão, com o nosso apoio.

 

Desde quando o senhor pratica esse tratamento experimental? Quantos pacientes já foram tratados, com que tipos de patologias e/ou traumas?

Desde 2001. Já foram tratados 125 pacientes, todos com trauma medular.

 

Quais foram os resultados obtidos até agora? Por exemplo: quantos pacientes tiveram melhorias clínicas comprovadas? Como é feita essa avaliação?

Temos artigo publicado no JSCM (Journal of Spinal Cord Medicine) em 2006 com os primeiros sete pacientes. Estamos acabando um artigo para publicar os resultados de mais de 20 doentes. Nestes, 55% mudaram seu grau de escala Asia, uma das escalas de recuperação neurológica usadas. Também usamos escalas de avaliação de qualidade de vida e marcha, além de estudos fisiológicos e de imagem.

 

Em que situações/doenças a terapia é recomendada? Quem pode se candidatar a recebê-la?

Nós só estudamos casos de trauma. Pacientes entre 18 e 40 anos de idades, mais de um ano após o acidente, com Asia A ou B, e lesão menor do que 3 cm (cervical) ou 4 cm (torácica), vista por ressonância magnética.

 

Há um protocolo básico que é seguido, ou cada paciente recebe um tratamento diferente, de acordo com suas características? Qual é o protocolo básico?

Tem a ver com as condições sobre as quais já falei e com os exames que são feitos antes e após a cirurgia, até um período de follow-up mínimo de dois anos, com programa de reabilitação proposto por nós.

 

Foi o senhor mesmo que desenvolveu a terapia? A técnica foi testada antes em modelos animais? Quais foram os resultados?

Fui eu e toda a equipe do Hospital Egas Moniz, em particular o professor Pratas Vital, neurocirurgião, e o doutor Pedro Escada, otorrinolaringologista.

 

A terapia faz parte de um ensaio clínico oficial, aprovado pelo hospital ou por algum órgão governamental? Nesse caso, há um grupo controle de pacientes?

Sim. É aprovado pelo hospital e, consequentemente, pelo Ministério da Saúde. Não há grupo controle uma vez que os nossos doentes, sendo severos e crônicos, estão estabilizados neurologicamente e podem servir como controle eles mesmos.

 

Como é possível avaliar a eficácia da terapia sem um grupo controle?

Não há registro de nenhum paciente crônico e motor completo que tenha voltado a andar sozinho. Atualmente temos um primeiro paciente prestes a andar sozinho.

 

É possível que os efeitos benéficos descritos pelos pacientes sejam resultado da fisioterapia, e não necessariamente das células-tronco? Há diferenças importantes entre essa fisioterapia e a fisioterapia convencional?

Não há nenhum caso descrito de pacientes nessas condições que tenham se recuperado a este ponto com fisioterapia. A fisioterapia que recomendamos e que sabemos ser a mais eficaz é diferente da clássica. Por exemplo, o foco é no treino de marcha, sem ortoses. Por outro lado, a recuperação dos doentes depende do tipo de reabilitação que é feita posteriormente.

 

Como é feito o acompanhamento dos pacientes após a cirurgia? Há testes clínicos que são realizados, ou a avaliação dos resultados é empírica?

Os testes clínicos, eletrofisiológicos e de imageamento são realizados pelo menos uma vez por ano após a cirurgia.

 

Há algum risco associado ao tratamento? Nesse caso, os pacientes são informados desses riscos? De que forma?

Há riscos como em qualquer cirurgia e os pacientes são informados por meio da declaração de consentimento que assinam e por mim, que os esclareço o melhor possível.

 

O tratamento é cobrado? Quanto custa?

Para pacientes nacionais não é cobrado nem cirurgia nem fisioterapia. Os estrangeiros que pretendam (se submeter à terapia) pagarão as despesas da cirurgia e internação ($ 35 mil), assim como da reabilitação. Atualmente também estão segurados contra riscos da cirurgia.

 

Como o senhor reage às críticas de cientistas que consideram seu tratamento precipitado e não comprovado cientificamente?

Não fazem sentido. (Nesse ponto, Lima cita um estudo de 2001, publicado na revista Brain Research.) Esse estudo serviu de base para o estudo australiano em humanos, com algumas similaridades com o nosso, cujos resultados foram publicados recentemente. (Cita outro estudo, de 2008, publicado na revista Brain.) Ora, se serviu para os australianos, por que não para nós? O grupo do Japão afiliado a nós também já publicou estudo experimental, que é mais uma corroboração. (Cita estudo de 2008, na revista Neuroreport.)

 

Algo mais que o senhor gostaria de acrescentar?

Gostaria de salientar a dificuldade encontrada em todos os níveis num estudo desse gênero. Os estudos já realizados podem ser contados nos dedos (e não incluem sequer a fisioterapia). Nem as grandes organizações mundiais de lesão medular conseguiram fazer estudos com terapia celular em humanos e, muito menos, em pacientes crônicos.

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