Mary Schwalm/AP, Issei Kato/Reuters, e Jin Liwang/Xinhua/AP
Mary Schwalm/AP, Issei Kato/Reuters, e Jin Liwang/Xinhua/AP

Nobel vai para autores de terapias contra a malária e verminoses

O irlandês William C. Campbell, o japonês Satoshi Omu e a chinesa Youyou Tu descobriram novas drogas e dividem prêmio de Medicina

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

05 Outubro 2015 | 07h27

SÃO PAULO - O irlandês William C. Campbell, o japonês Satoshi Omura e a chinesa Youyou Tu receberam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2015 por seus trabalhos sobre infecções causadas por parasitas e por seus novos tratamentos contra doenças parasitárias.

O anúncio foi feito nesta segunda-feira, 5, pela organização que concede o prêmio, o Instituto Karolinska, na Suécia. De acordo com o comitê, as pesquisas premiadas beneficiam 3,4 bilhões de pessoas que vivem em regiões onde a população está suscetível a essas doenças parasitárias.

Campbell e Omura foram premiados por sua descoberta de um tratamento contra as infecções causadas por vermes nematoides e Youyou Tu pela descoberta de um medicamento mais eficaz para a malára.

"Os laureados do Nobel deste ano desenvolveram terapias que revolucionaram o tratamento de algumas das doenças parasitárias mais devastadoras", declarou o comitê do Nobel, em um comunicado. 

Aos 85 anos, Campbell é pesquisador emérito da Universidade Drew, em Madison, New Jersey, nos Estados Unidos. Omura, de 80, é professor emérito da Universidade Kitasato, no Japão e da prefeitura de Yamanashi Central. Youyou Tu, de 84, é professora-chefe da Academia Chinesa de Medicina Tradicional.

Campbell e Omura descobriram um novo medicamento, a avermectina, cujos derivados diminuíram radicalmente a prevalência da oncocercose - doença também conhecida como "cegueira dos rios", causada pelo verme Onchocerca volvulus, e da filariose linfática - que tem a elefantíase entre seus sintomas -, causada por vermes do gênero Filarioidea.

De acordo com o júri do Nobel, "os novos medicamentos mostram eficácia contra um número cada vez maior de doenças parasitárias". "As descobertas da avermectina e da artemisinina modificaram fundamentalmente o tratamento das doenças parasitárias", diz o comunicado.

Hoje, a ivermectina - derivada da avermectina - é utilizada em todas as partes do mundo atingidas por doenças parasitárias, segundo o júri.

"A ivermectina é altamente eficaz contra uma gama de parasitas, limita efeitos colaterais e é amplamente disponível em todo o planeta. A importância da ivermectina para aprimorar a saúde e o bem estar de milhões de indivíduos com cegueira dos rios e filariose linfática - principalmente nas regiões mais pobres do mundo - é incomensurável. O tratamento é tão eficaz que essas doenças estão à beira da erradicação, o que será um feito de destaque na história médica da humanidade", declarou o comitê.

Especialista no cultivo de bactérias no solo, Omura contribuiu para a descoberta da avermectina ao criar milhares de culturas do gênero Streptomyces e identificar várias delas que produziam substâncias tóxicas para outros organismos. Campbell deu continuidade ao seu trabalho, avaliando a eficácia das culturas de bactérias criadas pelo japonês e identificando a espécie S. avermitilis, que produz a avermectina. A substância foi modificada quimicamente, mais tarde, para produzir a ivermectina - uma versão mais eficaz, que mata larvas dos vermes.

"A artemisinina é utilizada em todas as partes do mundo atingidas por malárias. Quando utilizada em terapias combinadas, reduz a mortalidade da malária em mais de 20% na população em geral e em mais de 30% entre crianças. Apenas para a África, isso significa mais de 100 mil vidas salvas a cada ano", diz o comunicado.

Esperado. Há muito tempo a comunidade científica esperava que Youyou Tu recebesse o prêmio por descobrir um tratamento especialmente eficaz contra a malária, graças ao extrato da planta artemísia (Artemisia annua). A substância ativa da planta, a artemisinina, é o tratamento mais eficaz hoje existente contra a malária, que atinge quase 200 milhões de pessoas por ano, matando mais de 500 mil, principalmente crianças africanas.

Youyou Tu é a décima segunda mulher e a primeira chinesa a receber o Prêmio Nobel de Medicina desde a sua criação, em 1901. No total, 47 mulheres e 817 homens foram premiados até hoje.  A malária infecta cerca de 200 milhões de indivíduos por ano, segundo o comitê.

Os vencedores receberão 8 milhões de coroas suecas - o equivalente a US$ 960 mil. Metade do prêmio vai para Campbell e Omura e a outra metade para Youyou Tu. Cada um dos laureados receberá um diploma e uma medalha de ouro em cerimônia que será realizada no dia 10 de dezembro, aniversário da morte do fundador do prêmio, Alfred Nobel.

Os três laureados sucedem o britânico John O’Keefe e o casal norueguês May-Britt Moser e Edvard Moser, premiados em 2014 por suas descobertas das "células de localização", que formam no cérebro um sistema de posicionamento, permitindo que a pessoa se oriente no espaço. As células foram descritas como uma espécie de "GPS interno".

O prêmio de Fisiologia ou Medicina é o primeiro da temporada do Nobel 2015. Nesta terça-feira, 6, será anunciado o vencedor do prêmio de Física, na quarta-feira, 7, o de Química, na quinta-feira, 8, o de Literatura e na sexta-feira, 9, o da Paz.

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