Aijaz Rahi/AP
Aijaz Rahi/AP

Nova terapia para conter casos de aids está restrita a 3 postos

Levantamento do ‘Estado’, até o início deste mês, aponta que uso de antirretroviral como prevenção atinge pequeno público

Lígia Formenti, O Estado de S.Paulo

16 Janeiro 2018 | 03h00

BRASÍLIA - Sete meses depois de anunciada, uma das estratégias consideradas fundamentais para reduzir novas infecções pelo vírus da aids, o HIV, ainda é raridade no Sistema Único de Saúde (SUS). A terapia pré-exposição (Prep), em que pessoas saudáveis tomam um antirretroviral para prevenir o HIV, deveria ser oferecida por 36 serviços de saúde desde dezembro. Segundo o Ministério da Saúde, porém, até o início de janeiro apenas três locais haviam iniciado a estratégia. E, mesmo assim, na maioria dos casos com pessoas que já eram acompanhadas em projetos-piloto.

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A reportagem do Estado ligou no início de janeiro para serviços em São Paulo, Manaus, Salvador, Minas, Paraná e Rio Grande do Sul. As justificativas para o atraso na oferta foram diversas: demora na chegada do medicamento no serviço, necessidade de organização dos profissionais e até indefinição sobre quantas pessoas devem ser atendidas por unidade. 

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O estudante Gabriel Freitas, de 28 anos, questiona desde o ano passado os serviços de Brasília sobre a data para o início da terapia. Ele diz estar em busca de maior proteção. Seu parceiro é HIV positivo e, com a Prep, quer ter “segurança” para dispensar o uso do preservativo.

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Eles anunciam nacionalmente, criam a expectativa e depois ficamos nessa indefinição.
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Gabriel Freitas, estudante

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A coordenadora de Vigilância de Infecções Sexualmente Transmissíveis e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Tatiana Meireles Alencar, afirmou que o medicamento usado na Prep, o Truvada, já foi comprado e distribuído e a decisão sobre o início da estratégia e a organização da oferta são de responsabilidade de cada centro. 

O fato de não ser possível nem agendar um horário para fazer a entrevista de triagem não é considerado um problema. “Uma vez instalado, o processo será ágil. Se a pessoa preencher as condições, ela vai sair já na triagem com o medicamento”, disse Tatiana. Só em março o Ministério da Saúde terá um balanço de usuários. 

Em São Paulo, a Prep será iniciada oficialmente nesta quinta-feira. Em um primeiro momento, centros paulistas vão receber remédios suficientes para o atendimento de 222 pessoas por cinco meses. “É o início. A expectativa é de que esse quantitativo seja progressivamente ampliado”, afirmou a coordenadora adjunta do Programa de DST-Aids e Hepatites Virais, Rosa de Alencar Souza.

O Estado apurou que a data provocou insatisfação entre funcionários dos serviços paulistas. As equipes afirmam não ter condição de colocar a estratégia em prática, sobretudo por haver indefinição sobre o número de pacientes. A incorporação da Prep no Brasil foi anunciada em maio. Na ocasião, foi estabelecido o prazo de seis meses para que serviços passassem a ofertar o remédio. A lista de serviços que oferecerão a terapia foi divulgada em dezembro. A previsão é de que na primeira fase 7 mil pessoas sejam atendidas. A Prep não é para toda população - é voltada para pessoas com mais de 18 anos com maior vulnerabilidade para o HIV: homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo, pessoas trans e parceiros sorodiscordantes (em que só um deles é HIV positivo).

A ideia é que a prevenção, antes resumida ao uso de preservativo, passe a ser feita com combinação de várias estratégias. O medicamento não evita outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), como a sífilis. Daí a recomendação de manter a utilização de preservativo. 

O professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Mário Scheffer, alerta, porém, que para a contenção da epidemia não basta ter o medicamento disponível nos serviços. “É preciso divulgar a informação.” Ele cita como exemplo a terapia pós-exposição, estratégia em que antirretrovirais são usados por pessoas que tiveram risco de contaminação pelo HIV. “Esse é um recurso pouco usado.”

Tatiana afirmou que a divulgação da Prep já teve início e será intensificada. Entre as medidas usadas estão informações nos aplicativos de encontro, WhatsApp e com youtubers. São Paulo tem um plano semelhante. Mas Rosa admite que essas estratégias têm uma influência limitada com profissionais do sexo, por exemplo. 

 

Gênero

Em São Paulo, será aberto em Campos Elísios um espaço destinado para saúde integral dessa população. A ideia é também discutir a Prep nos serviços que trazem assistência para adequação de gênero.

Lá tem...

EUA

Foi o primeiro País a aprovar e regulamentar a Prep.

Europa

Os estudos para adoção começaram em 2015, com base na França.

América Latina 

Brasil será o primeiro país da América Latina a adotar a terapia. E o primeiro com amplo acesso na rede pública.

Outros países

No total, a Prep é adotada atualmente em 15 países, incluindo Canadá e Inglaterra, conforme balanço de 2017. Especialistas relatam dados animadores. “A terapia ajudou a frear o avanço de novas infecções nos Estados Unidos. No Reino Unido, o impacto também foi positivo”, disse Mário Scheffer, da USP. “Ela não é uma panaceia, é indicada para grupos específicos. Mas os relatos mostram que tem um papel relevante, sobretudo na estratégia de prevenção combinada.”

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Estudo em 5 cidades brasileiras aponta eficácia de 100%

Trabalho acompanhou 526 voluntários que passaram a usar o medicamento; equipes médicas são resistentes

Lígia Formenti, O Estado de S.Paulo

16 Janeiro 2018 | 03h00

BRASÍLIA - Estudo inédito realizado em cinco cidades mostra que o uso de antirretrovirais para prevenir o HIV foi eficaz em 100% dos casos. O trabalho acompanhou 526 voluntários que passaram a usar o medicamento como estratégia de prevenção. 

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No período avaliado, nenhuma das pessoas que usavam o medicamento contraiu o HIV. “Três infecções foram identificadas, mas entre pessoas que esperavam para iniciar o uso da Prep”, disse o coordenador do trabalho, o pesquisador Alexandre Grangeiro, da Universidade de São Paulo (USP). Para ele, o resultado confirma a importância da estratégia e reforça a necessidade de implementação no Sistema Único de Saúde.

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Batizado de Combina!, o estudo financiado pelo Departamento de DST/Aids do Ministério da Saúde, CNPQ e Unesco trouxe uma surpresa relacionada à motivação dos usuários. A maior parte disse estar em busca de qualidade de vida.

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Mas o trabalho também revela os desafios que serão enfrentados para garantir a eficácia da estratégia. A começar pelo acesso. A Prep é indicada para pessoas de maior vulnerabilidade para a infecção, como transexuais, profissionais do sexo, homens que fazem sexo com homens e casais em que um dos parceiros é soropositivo e outro não. Os centros que participaram do estudo seguiram essa orientação. No entanto, a maior parte dos voluntários era composta de homens que fazem sexo com homens (93,4%). 

Essa diferença no acesso, avalia Grangeiro, precisa ser corrigida. “Se todos os grupos vulneráveis não forem atingidos, a Prep perde parte importante do impacto.”

O trabalho trouxe à tona ainda a resistência de parte dos profissionais. “Quase 40% afirmaram que a Prep não era totalmente segura e 43% dizem que preservativos são mais eficazes”, destacou o pesquisador. Essas respostas foram dadas mesmo depois de profissionais passarem por treinamento.

Para ele, a oferta da Prep vai provocar nos serviços um aumento da demanda. “O ideal é ajustar o atendimento, estabelecendo atribuições específicas para cada profissional e, sobretudo, reduzindo o tempo de espera das pessoas.” Como se trata de uma estratégia de prevenção que é feita por um longo período de tempo, as pessoas não têm como, a cada três meses, perder horas no serviço. “Daí a importância de oferecer horários alternativos: próximo do almoço, aos sábados, à noite.”

Tranquilo

Há mais de um ano usando a Prep, o produtor cultural Leonardo Zufo diz ter enfrentado algumas vezes problemas na assistência. “Em um determinado momento houve redução do medicamento, o que me levou a voltar mais vezes para o centro.” Apesar das dificuldades eventuais no atendimento, Zufo assegura que sua qualidade de vida melhorou com a Prep. “Hoje estou mais tranquilo. Eu me sinto protegido.”

Sem namorado fixo, ele conta que com a terapia já não usa preservativos em todas as relações. “Deixo para os parceiros que não conheço muito bem. Afinal, o medicamento não protege contra outras DSTs.” Até o momento, ele diz não ter sentido nenhum efeito colateral e não ter problemas para tomar o remédio todos os dias. “Tem de ser pela manhã. É como um suplemento. Se incorporado na rotina, a gente não esquece.”

Antes de usar a Prep, Zufo já havia recorrido duas vezes aos antirretrovirais para prevenir o HIV. Mas, naquelas ocasiões, o uso dos remédios foi feito depois de uma situação de risco, a chamada terapia pós-exposição. Nessas duas ocasiões, ele tomou diariamente, por um período de 28 dias, antirretrovirais. “Não foi muito bom. Tive efeitos colaterais, mas a prevenção funcionou.” 

Zufo diz que desde o início de sua vida sexual tomou precauções para evitar o HIV. Nos primeiros anos, foi fiel ao preservativo. “Era muito regrado. O medo da aids era grande.” As coisas foram mudando depois de um relacionamento fixo. “Aos poucos, fui abandonando o uso.” Quando o namoro acabou, ele retomou o preservativo, mas já não de forma tão regrada. “Mas me preocupo, daí ter recorrido à Pep (profilaxia pós-exposição ao HIV) e, agora, à Prep”.

Zufo afirma não ter planos de usar para sempre antirretrovirais. “Estou no programa Combina! Quando acabar, vou tentar obter o medicamento no SUS.” Mesmo se conseguir, completa, pretende deixar a estratégia no futuro. “Se tiver um namorado fixo, talvez não seja necessário. O que quero é, qualquer que seja o método, garantir a minha segurança e do meu parceiro.”

 

Profissional do sexo motivou estratégia

As entrevistas feitas durante a pesquisa deixam claro que, quando informados, profissionais do sexo têm interesse em usar essa estratégia de prevenção. O pesquisador Alexandre Grangeiro diz ser essencial a criação de alternativas para o atendimento.

“Profissionais do sexo tinham um risco quase quatro vezes maior de interromper a terapia anteriormente”, observou. Para tentar reverter essa tendência, foi testado o atendimento aos sábados.

Com a mudança, a adesão ao tratamento aumentou de forma expressiva.

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