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Novas diretrizes de Alzheimer propõem atenção ao ‘início silencioso’ da doença

Alexandre Gonçalves, Fernanda Bassette e Karina Toledo - O Estado de S. Paulo

19 Abril 2011 | 08h 43

Mudanças recomendam atenção especial às fases iniciais da enfermidade, antes da demência, e estímulo a pesquisas clínicas de biomarcadores e fármacos. Brasil realizará revisão até junho

SÃO PAULO - Depois de 27 anos, as diretrizes para diagnóstico de Alzheimer foram revisadas. Quatro artigos publicados hoje na revista científica Alzheimer’s and Dementia recolhem os avanços das últimas décadas no conhecimento da doença.

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As principais mudanças foram a diferenciação do Alzheimer em três estágios, que vão da ausência completa de sintomas à demência, passando por comprometimentos cognitivos leves. Os novos critérios também pretendem impulsionar as pesquisas clínicas de medicamentos, especialmente para as fases iniciais da doença.

Segundo William Thies, da Associação Americana de Alzheimer, responsável pela revisão das diretrizes, as mudanças não impactarão a prática clínica no curto prazo. "Não existe nenhum teste novo que deva ser solicitado por enquanto", afirmou Thies ao Estado. "No entanto, vai ajudar um grande número de estudos clínicos promissores que são realizados atualmente."

Até agora, as terapias disponíveis no mercado estavam voltadas apenas para a fase da demência, quando a doença já se estabeleceu. E, mesmo assim, apresentam resultados tímidos, diminuindo a velocidade das perdas cognitivas sem impedir seu progresso inevitável.

Um dos artigos trata exclusivamente do uso de biomarcadores no diagnóstico da doença: a procura por substâncias no organismo que denunciem a evolução silenciosa do Alzheimer. Alguns exames, por exemplo, identificam os níveis das proteínas beta-amiloide e tau, associadas à doença, no liquor - líquido extraído da medula do paciente.

No Brasil, por exemplo, há laboratórios que cobram de R$ 2 mil a R$ 3 mil por um exame desse tipo. Contudo, os autores do estudo sublinham que, por enquanto, tais testes não são úteis para orientar condutas clínicas.

Ivan Okamoto, diretor científico da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz) e coordenador do Instituto da Memória da Unifesp, compara os biomarcadores de Alzheimer ao exame de colesterol para aferir risco cardiovascular. "No colesterol, você sabe exatamente quais os níveis aceitáveis da substância no sangue. No caso dos biomarcadores de Alzheimer, ainda não sabemos", afirma Okamoto.

Por enquanto, um diagnóstico precoce da doença - antes de aparecerem os sintomas - não serviria para nada, pois não há uma terapia adequada. "Você pode criar um monstro. Além da angústia para o paciente, surge um dilema ético clínico: vou fazer o que com esse novo dado?", diz o médico da Unifesp.

O psiquiatra e geriatra da USP Cássio Bottino afirma que, na prática, os médicos já tentam identificar comprometimentos cognitivos o mais cedo possível. "Recomendamos exercícios cognitivos e físicos. Discutimos com a família o uso dos medicamentos existentes. Esse tipo de cuidado já vem sendo feito, mas as diretrizes vêm reforçar e padronizar essa prática", afirma.

Wagner Gattaz, do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq-USP), revela que, nas próximas semanas, seu grupo de pesquisa publicará dados promissores sobre o uso do lítio para evitar que pessoas com comprometimento cognitivo leve evoluam para demência. "Com diagnósticos mais sensíveis e precoces, será possível recorrer a esta técnica."

Demência. A revisão altera também os critérios para diagnóstico na fase avançada da doença, quando o quadro de demência já está instalado. "Houve um detalhamento maior das funções cognitivas afetadas. Isso ajuda a diferenciar o Alzheimer de outras demências pouco conhecidas há 20 anos, como a demência frontotemporal, que tem tratamento diferente", diz Bottino.

Além disso, exames complementares de imagem - como ressonância e tomografia - ganham mais peso no diagnóstico.

Okamoto afirma que a Associação Brasileira de Neurologia e a Abraz pretendem se reunir em maio para discutir as diretrizes nacionais. Os resultados saem em junho. "Vamos levar em conta as novas diretrizes."

PARA ENTENDER

A doença de Alzheimer é o tipo mais frequente de demência, não tem causa conhecida e sua prevalência e incidência aumentam com a idade.

O sintoma primário e mais comum é a perda de memória, mas, com a progressão da doença, vão surgindo sinais como confusão, irritabilidade, alterações de humor, falhas na linguagem e prejuízo da capacidade de orientação temporal ou espacial. A doença também pode vir acompanhada de um quadro de depressão, ansiedade ou apatia.

Ainda não há cura para o Alzheimer, mas já existem medicamentos capazes de retardar o progresso da doença e minimizar os distúrbios de humor e de comportamento.