1. Usuário
Assine o Estadão
assine
  • Comentar
  • A+ A-
  • Imprimir
  • E-mail

Novos estudos reforçam elo entre zika e microcefalia

- Atualizado: 11 Fevereiro 2016 | 11h 56

Análises na Eslovênia e EUA mostram vírus no cérebro de bebês que morreram; no Brasil, em 12 crianças foi detectado zika no líquor

SÃO PAULO - Três novos estudos divulgados nesta quarta-feira, 10, reforçam as evidências de que a epidemia de zika pode estar associada ao surto de casos de bebês nascidos com microcefalia no Brasil. Os trabalhos, provenientes dos Estados Unidos, da Eslovênia e do Brasil, identificaram a presença do vírus no cérebro de bebês com microcefalia e na placenta.

O estudo europeu foi feito em um bebê abortado com microcefalia, cuja mãe havia engravidado no Brasil. A mulher, de 25 anos, optou por interromper a gravidez com 32 semanas de gestação, após uma ultrassonografia confirmar a existência da má-formação, e autorizou a realização do estudo, feito na Universidade de Ljubljana e publicado na quarta no site da revista médica americana The New England Journal of Medicine.

5 orientações da OMS sobre o zika vírus
REUTERS
Mulheres grávidas devem estar preocupadas com o zika vírus?

Embora os sintomas associados com zika sejam geralmente leves, uma possível associação foi observada entre o aumento anormal de zika e casos de microcefalia no Brasil desde 2015.

Segundo o relato dos pesquisadores, a paciente era uma mulher europeia que estava fazendo trabalho voluntário em Natal (RN) desde dezembro de 2013. Ela engravidou no final de fevereiro de 2015 e apresentou sintomas de zika - febre alta, manchas vermelhas, coceira, dores nos olhos e musculares - três meses depois. Exames de ultrassonografia realizados na 14.ª e 20.ª semana de gestação não revelaram nenhum problema. O desenvolvimento do feto, até então, era normal.

Com 28 semanas de gestação, a paciente retornou para a Europa e passou por novos exames. Na 29.ª semana, uma ultrassonografia identificou os primeiros sinais de anomalia; e quatro semanas depois, o diagnóstico de microcefalia foi confirmado. A circunferência craniana do feto era de 26 centímetros. Após o aborto, os médicos fizeram uma autópsia da criança e encontraram várias anomalias no cérebro: além do tamanho reduzido, havia vários pontos de calcificação, ausência de dobras e acúmulo de líquidos. A presença do vírus no tecido cerebral foi confirmada por análises genéticas (técnica de PCR) e imagens de microscopia eletrônica. Os pesquisadores suspeitam que o vírus penetre nos neurônios e cause a morte dessas células, interferindo assim no desenvolvimento do cérebro.

Foi possível até mesmo sequenciar completamente o genoma do vírus e compará-lo com o de outras amostras colhidas no Brasil e outras partes do mundo. A maior semelhança foi com vírus colhidos na Polinésia Frances em 2013 e em São Paulo, em 2015. 

O estudo não identifica a paciente e não esclarece se ela é cidadã eslovena ou viajou para aquele país especificamente para realizar o aborto - que é proibido no Brasil para esse tipo de situação.

7 perguntas e respostas sobre a microcefalia
REUTERS / Ueslei Marcelino
O que é microcefalia?

É uma má-formação congênita em que a criança nasce com o perímetro cefálico menor do que o convencional, que é de 32 centímetros. Isso significa que o cérebro não se desenvolveu da maneira esperada.  

Forte evidência. Resultados semelhantes foram encontrados pelo Centro de Controle de Doenças e Prevenção dos Estados Unidos (CDC), que analisou amostras do Rio Grande do Norte de dois bebês que morreram cerca de 20 horas depois de nascer e de dois fetos abortados. As quatro mães tinham apresentado sinais clínicos de infecção por zika no primeiro trimestre de gravidez. O material, enviado pelo Ministério da Saúde para os EUA, foi testado positivamente para zika. O vírus foi encontrado em amostras de cérebro dos recém-nascidos, no tecido dos fetos e nas placentas. Testes para outras doenças normalmente associadas a microcefalia, como toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, herpes e HIV deram negativo.

Sim, é possível fazer o diagnóstico por meio de exames de imagem. 

Sim, é possível fazer o diagnóstico por meio de exames de imagem. 

O diretor do CDC, Tom Frieden, se dirigiu ao Congresso americano para pedir apoio aos esforços contra a epidemia e disse que a análise do material genético no cérebro de bebês brasileiros é “a mais forte evidência até agora” da relação entre zika e microcefalia.

Para o virologista brasileiro Pedro Vasconcelos, do Instituto Evandro Chagas, que tinha feito a primeira identificação de zika em um bebê com microcefalia no Brasil (do Ceará), “não há dúvidas de que o vírus é a causa do problema”. Mas afirma que a descoberta de cada vez mais casos só confirma isso.

Ele informou ao Estado que seu grupo acabou de identificar em 12 bebês com microcefalia a presença de anticorpos para o zika no líquido cefalorraquiano, encontrado no crânio e na medula espinhal. “São várias ligações que vê se somar. Isso nos dá a certeza de que estamos no caminho certo e que, como não temos vacina nem tratamento, o alvo tem de ser combater o Aedes cada vez mais.”

Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Estadão.
É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Estadão poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Você pode digitar 600 caracteres.

Mais em SaúdeX