Número de cirurgias não-cardíacas cresceu 20% de 1995 a 2007 no Brasil

Gastos subiram 200%, para R$ 17,1 bi, diz pesquisa do Incor que analisou banco de dados do SUS

Agência USP

24 Setembro 2010 | 20h42

SAO PAULO - O número de cirurgias não-cardíacas no Brasil aumentou 20,42% e os gastos com esses procedimentos cresceram quase 200% entre 1995 e 2007. No total, houve mais de 32 milhões de operações desse tipo no País durante os 13 anos estudados, e os custos relacionados a hospitalizações superaram US$ 10 bilhões (R$ 17,1 bilhões).

Os dados são do Instituto do Coração (Incor), do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), a partir da análise do banco de dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus).

“O crescimento no número de procedimentos cirúrgicos provavelmente está relacionado às mudanças demográficas e tecnológicas que ocorreram no País e no mundo nos últimos anos”, afirma a médica do Incor Pai Ching Yu, autora da pesquisa.

Segundo ela, o aumento da expectativa de vida e o envelhecimento da população provocam uma maior vulnerabilidade das pessoas a doenças e, consequentemente, a operações. A médica acrescenta que esse crescimento também pode ser reflexo do fato de que os brasileiros têm mais acesso às cirurgias oferecidas pelo SUS.

O trabalho fez parte da tese de doutorado de Pai Yu pela FMUSP, sob orientação do professor Bruno Caramelli. Dentro do tema de cirurgias não-cardíacas, foram estudadas cinco variáveis: número de internações, gasto total com internações, gasto com transfusões de sangue, tempo de internação hospitalar e taxa de mortalidade.

O custo com transfusões de sangue ficou próximo de US$ 98 milhões (R$ 167,5 milhões). Quanto à taxa de mortalidade nas internações cirúrgicas, o estudo constatou um acréscimo de 31,11%. A médica explica que essa elevação se deve à mudança de perfil demográfica e clínica da população nos últimos anos.

“Estamos atendendo pacientes mais idosos, com mais comorbidades (conjunto de doenças clínicas, como hipertensão, diabete e colesterol alto) e com maior risco cirúrgico”, explica.

A pesquisa exclui cirurgias de pequeno porte (como as de ambulatório), as de peculiaridades específicas (como partos) e pequenos procedimentos (biópsias).

Comparação com outros países

Apesar do aumento dos gastos, a pesquisadora faz ressalvas sobre o montante:“Quando se compara com dados internacionais, o Brasil está muito aquém”. O levantamento destacou informações da Organização Mundial de Saúde (OMS), que aponta que o governo brasileiro investe anualmente em saúde per capita apenas US$ 204 (R$ 348), enquanto que a média do investimento global é de US$ 429 (R$ 733).

Além disso, o País realiza, em média, menos de 2,5 milhões de cirurgias não-cardíacas por ano, bem abaixo do número de países desenvolvidos como EUA, que fazem cerca de 38 milhões de procedimentos, e União Europeia, com 7 milhões. Já com base em estudos e publicações de países da América do Norte, a médica observa que os casos de fatalidade no Brasil ainda são duas vezes maiores que os índices dos EUA e quase nove vezes maiores que os canadenses.

Pai Yu também diz que ainda há poucas pesquisas no País para interpretar os dados do Datasus e que seu estudo terá uma próxima etapa, na qual pretende analisar os dados por especialidade cirúrgicas. O objetivo é verificar a peculiaridade de cada variável nessas especialidades. “Conseguimos obter um perfil cirúrgico dos procedimentos no Brasil. Na próxima etapa, esperamos que os nossos resultados contribuam para o planejamento e investimento na área de saúde”, avalia.

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