O medo e a razão

Há cem vezes mais risco de morrer de acidente do que de febre amarela

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2018 | 05h00

A realidade é uma ilusão criada pelo cérebro. Passado, presente e futuro só existem como os conhecemos em nossas mentes. Tudo o que nós lembramos (passado), percebemos (presente) e projetamos (futuro) depende da nossa maquinaria cerebral. O problema é que, apesar de sua eficiência impressionante em determinadas tarefas – aquelas que moldaram a evolução do órgão –, ela encontra bastante dificuldade para lidar com cálculos e decisões que originalmente não estavam presentes quando o cérebro foi sendo moldado. Sim, estamos falando dos nossos inseparáveis vieses.

Tome nossa capacidade de prever o que irá acontecer. A imaginação é uma ferramenta poderosa para construção de cenários futuros – é capaz de traçar cursos de ações que ainda não ocorreram, prever as reações que ocorrerão ao longo do caminho, antecipar até mesmo nossos estados emocionais. Esse mundo, contudo, é apenas o mundo da imaginação. Quando a realidade se desdobra diante de nós, na maioria das vezes poucas coisas acontecem de fato como imaginamos.

Isso acontece porque, para erguer os edifícios dos cenários futuros, a imaginação utiliza os tijolos remanescentes dos cenários passados. A memória é o principal fornecedor do seu material de construção. E as lembranças são um material bem menos confiável do que gostaríamos. Não tanto pelo fato de serem distorcidas – elas são –, mas mais por não serem representativas. O cérebro não desperdiça recursos registrando tudo o que acontece na maior parte do tempo. Ele se concentra no que é inesperado ou afetivamente importante.

Quando vamos imaginar o que irá acontecer, portanto, recorremos a elementos que não representam o dia a dia, o corriqueiro. Ao contrário, é da exceção que lembramos mais facilmente. É por isso que o porvir sempre nos parece excepcional, quando o mais provável é que ele seja apenas trivial.

De fato, os afetos interferem – e muito – em nosso raciocínio. Sabemos disso quando dizemos para as pessoas decidirem racionalmente em vez de com a emoção. Mesmo assim, por vezes parece impossível ser racional quando estamos sob influência da emoção. O medo, por exemplo, pode nos levar a verdadeiros absurdos. E nos últimos dias todos testemunhamos como ele estimula comportamentos irracionais.

Embora as notícias sobre a febre amarela já viessem há meses desenhando seu trajeto de aproximação dos centros urbanos, a maioria de nós ainda não parecia realmente assustada com tal perspectiva. Até que as manchetes mudaram e começaram a trazer números de mortos. Foi a senha para que todos resolvessem que era urgente se vacinar naquele mesmo dia. A sensação de urgência provocada pelo medo pode ser visualmente conferida no tamanho das filas que se formaram nos postos de saúde, em que se esperavam quatro, cinco, seis horas para tentar pegar uma senha e quem sabe garantir, nos próximos dias, a vacina que afastaria esse risco de morte.

Obviamente calcular o risco era uma tarefa impossível, estando tão assustados. Mas valeria a pena pensar: segundo o mais recente boletim da Secretaria Estadual da Saúde, desde janeiro de 2017 foram confirmados 134 casos autóctones, 52 que evoluíram para óbito. O Estado tem 45 milhões de habitantes. Isto é, morreu uma pessoa por milhão. Só como comparação, no mesmo período 883 pessoas morreram no trânsito apenas da cidade de São Paulo. Com 12 milhões de habitantes, isso significa algo perto de um óbito a cada 10 mil pessoas. Ou seja, a gente tem cem vezes mais risco de morrer de acidente nas ruas do que de febre amarela.

Não estou em campanha antivacinação. Todo mundo deve contribuir para deter mais essa doença do atraso que nos persegue. Sobretudo quem mora em áreas de risco e tem chances maiores de ser infectado do que as médias citadas. Mas é importante as pessoas tentarem se manter racionais para não acontecer o mesmo que se deu comigo, que só quando estava correndo desesperado atrás da dose salvadora me lembrei que já fora vacinado anos atrás. Não era amnésia. É que contra o medo, infelizmente, não há vacina.

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