O peixe-leão nos recifes de Bonaire

'Sabemos que não vamos nos livrar deles, mas pelo menos temos de tentar manter a população baixa onde for possível', diz responsável pelo Parque Nacional Marinho de Bonaire

Herton Escobar,

25 Junho 2011 | 15h31

Ramón de León sabia que era apenas uma questão de tempo até sua ilha ser atacada. Há vários anos ele já acompanhava atentamente a onda de peixes-leões que descia das Bahamas em direção ao sul, invadindo ilha após ilha e deixando um rastro de espécies nativas devoradas pelo caminho. Responsável pela proteção do Parque Nacional Marinho de Bonaire, no sul do Caribe, que concentra alguns dos recifes de coral mais bem preservados da região, ele não perdeu tempo. Seis meses antes do primeiropeixe-leão aparecer por ali, já tinha um plano de manejo pronto e organizava seminários para treinar mergulhadores a repelir o invasor.

 

"Nunca tinha visto um peixe-leão, mas sabia que ele estava a caminho, que era uma ameaça e que não podíamos ficar de braços cruzados", relembra León, um oceanógrafo uruguaio que morou dez anos no Brasil, com doutorado em engenharia ambiental pela Universidade de São Paulo.

 

Não deu outra. Em 26 de outubro de 2009 - muito antes do que se esperava - ele mesmo capturou o primeiro peixe-leão em águas bonarianas, a 18 metros de profundidade, na praia de NuKove, noroeste da ilha. Um peixinho de apenas 5 centímetros, mas que deixou muita gente grande preocupada. Logo no dia seguinte apareceu mais um, em outra praia. Depois mais um, e mais um, até todos os recifes de Bonaire estarem repletos de peixes-leões.

 

"Sabemos que não vamos nos livrar deles, mas pelo menos temos de tentar manter a população baixa onde for possível", sentencia León, um ano e meio após o início da invasão, em entrevista ao Estado.

Os impactos imediatos da invasão são difíceis de serem mensurados, pois leva tempo para que alterações ecológicas se façam sentir no ecossistema como um todo de maneira expressiva. Mas ninguém duvida que os efeitos a longo prazo poderão ser desastrosos - especialmente para uma ilha que depende quase que exclusivamente do turismo de mergulho para sobreviver. A ilha inteira está mobilizada para repelir a invasão e evitar a destruição dos recifes.

 

O problema é que, até para o homem, com toda sua experiência em pescar e exterminar espécies, o peixe-leão é uma presa difícil de ser capturada. Ele não forma cardumes e gosta de ficar bem próximo aos recifes, tornando impraticável a pesca com linhas ou redes em grandes quantidades. Armadilhas com iscas, como as que são usadas para pescar lagostas e caranguejos, até que funcionam, mas acabam capturando também outras espécies de peixes junto com o peixe-leão - o que vai contra o objetivo de protegê-las dele. "A única solução é matar um por um, mergulhando com arpão", resume León - que, ironicamente, compartilha o sobrenome de seu inimigo marinho, em espanhol.

 

No fim do ano passado, após quase quatro décadas de proibição da pesca submarina em Bonaire - uma das razões pelas quais seus recifes ainda estão relativamente saudáveis - uma exceção foi aberta na lei para permitir a caça de espécies invasoras. Mais de 200 mergulhadores residentes da ilha agora estão autorizados a portar arpões e matar todo e qualquer peixe-leão que encontrarem pela frente. E muitos deles fazem isso comfreqüência, como o Estado pode acompanhar durante várias semanas em que esteve na ilha.

 

Uma reação extrema, porém necessária, segundo León. "Temos de atirar com todas as armas que temos", diz ele. A única restrição é que o arpão usado precisa ser de um único modelo autorizado pelo parque, chamado ELF (Eliminate Lionfish), que tem alcance muito curto e, por isso, não serve para matar outros tipos de peixes. Com isso, Ramón espera evitar que caçadores se aproveitem da brecha na lei para arpoar outras espécies que não o peixe-leão.

 

"Felizmente para nós, a natureza deu ao peixe-leão 18 espinhos venenosos, mas também tirou um pouco da sua inteligência", diz o biólogo Jerry Ligon, morador e instrutor de mergulho em Bonaire há 17 anos. Outras espécies fogem quando um mergulhador se aproxima delas, mas o peixe-leão parece não se intimidar com nada. Não foge de nenhum predador - nem mesmo do homem -, o que permite aos mergulhadores chegar bem próximo com o arpão e matá-lo com relativa facilidade. Seu único ponto fraco. "É um peixe extremamente arrogante", resume Ligon, que mergulha várias vezes por semana com seu ELF para caçar.

 

DE VOLTA A NUKOVE

 

Um ano e meio após a captura do primeiro peixe-leão em NuKove, o Estado voltou com León ao local para verificar a situação do recife. Em um mergulho de aproximadamente 50 minutos, avistamos 13 peixes-leões, de variados tamanhos, em diferentes profundidades. León matou dez deles com um ELF. "Treze peixes, depois de um ano e meio, até que não é muito", avalia ele. "Outros lugares do Caribe estão muito pior."

 

Após o mergulho, tomando cuidado para não espetar os dedos nos espinhos venenosos, levamos os peixes arpoados para o centro de pesquisas do Council on International Educational Exchange (CIEE), na capital da ilha, Kralendijk, onde pesquisadores mantêm um "banco" com mais de 1.500 peixes-leões preservados em álcool ou congelados. Cada animal recebido é medido, pesado, e tem o estômago removido para análise. Os estudos comprovam que, quando pequeno, o peixe-leão se alimenta mais de pequenos crustáceos, como camarões. À medida que cresce, passa a se alimentar principalmente de peixes.

 

O peixe-leão engole suas presas inteiras, e seu estômago pode se expandir até 30 vezes o volume inicial. Pesquisadores já encontraram mais de 20 peixes na barriga de alguns deles. Ao final de um mergulho anterior, que fizemos no Parque Nacional de Washington-Slagbaai, no norte da ilha, pedi a León que abrisse a boca de um peixe-leão arpoado, para uma foto, e percebi que havia a ponta do rabo de um peixe escapando por sua goela. Abrimos o estômago do bicho e tiramos de lá um peixe-tesourinha-azul (Chromis cyaneus) recém-engolido, praticamente intacto, com cerca de metade do tamanho do próprio peixe-leão. Equivalente a um cachorro que tivesse engolido um coelho inteiro.

 

O peixe "número um", capturado por León em 2009, está guardado no CIEE, dentro de um vidrinho com álcool, num armário com outros peixes-leões bem maiores do que ele. "Foi espantoso ver a curva de crescimento da primeira geração", relembra a diretora do laboratório, Rita Peachey, folheando o livro de registros. "No início eram todos pequenos. Aí foram ficando maiores, e maiores, até que começaram a se reproduzir e agora temos peixes de todos os tamanhos por todos os lados."

 

Assim como León, Peachey não tem esperanças de erradicar o peixe-leão. E teme pelo futuro dos recifes de Bonaire. "Mesmo se mantivermos nossa população local em níveis baixos, sempre haverá mais larvas chegando de outras ilhas", aponta ela. A longo prazo, portanto, o controle precisa ser feito em escala regional, com a cooperação de todas as ilhas e países envolvidos.

 

A reação organizada de Bonaire já se tornou referência na região. "Estou muito impressionado com o trabalho do Ramón", elogia o pesquisador Morris, antes mesmo de o Estado perguntar alguma coisa.

 

A ilha vizinha de Curaçao, invadida ao mesmo tempo que Bonaire, só agora está colocando em prática um plano semelhante para combater o peixe-leão. León esteve lá no início de junho para treinar 25 mergulhadores a caçar com arpões ELF. Em um dos mergulhos de treinamento, ele, sozinho, matou mais de 30 peixes-leões. "Minha sacola ficou lotada. Tive de deixar alguns peixes grandes mortos no recife, porque não cabiam mais", escreveu León no Facebook, na página de um grupo de caçadores de Bonaire. "Minha impressão geral é que tem muito mais peixe-leão em Curaçao do que aqui." Um indício de que a caça organizada em Bonaire está dando resultados, já que as duas ilhas são muito próximas, foram invadidas ao mesmo tempo e têm condições ambientais parecidas.

 

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