Obesidade infantil avança e atinge crianças do Bolsa-Família

São 300 mil beneficiados com excesso de peso; no Sul e Sudeste, problema prevalece sobre desnutrição

Eduardo Nunomura, de O Estado de S.Paulo,

07 Março 2009 | 19h12

Considerada um problema de saúde pública, a obesidade infantil passou a atingir mais crianças atendidas pelo Bolsa-Família nas Regiões Sul e Sudeste do País do que a desnutrição. É o que aponta mapeamento feito com base em dados do programa.   Veja também: Comerciais miram consumo infantil Norte e Nordeste ainda sofrem com desnutrição  Especial: confira o estado nutricional de seu filho    Em dezembro de 2006, 11% das crianças de 0 a 9 anos atendidas pelo Bolsa-Família estavam desnutridas no Sul e no Sudeste, ante 10,4% com risco de sobrepeso. Essa relação se inverteu em dezembro do ano passado – 10,2% ante 11,3%. Com a renda mínima oferecida pelo programa, que vai de R$ 20 a R$ 182, milhões de famílias passaram a comprar mais tipos de alimento, o que nem sempre se traduz em qualidade nutricional. Quase 300 mil crianças brasileiras do programa estão com sobrepeso. Equivalem a 11,2% dos avaliados. O avanço do fenômeno, chamado de transição nutricional, preocupa, já que o Brasil tem de lidar com as duas situações – obesidade e desnutrição.   "É um desafio ter que conviver com o pior dos dois mundos", resume Leonor Maria Pacheco Santos, secretária de Avaliação e Gestão da Informação do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. De um lado, são crianças sofrendo de desnutrição, diarreia, retardo de crescimento – quadro registrado principalmente no Norte e Nordeste (mais informações na pág.A21). Do outro, elas apresentam hipertensão, diabete, lesões de pele, colesterol elevado. E os dois problemas podem se somar: depois da desnutrição na infância, o excesso de peso na vida adulta.   Estudiosos investigam a relação entre desnutrição da primeira infância com o risco de desenvolver doenças na vida adulta, como obesidade, diabete, cardiopatias e hipertensão. As crianças pobres podem ser as mais afetadas, como sinalizam os dados do Bolsa-Família. "A população que tem mais obesidade é a de baixa renda. Os ricos têm a chance de ir a um spa ou consultar uma nutricionista", explica Leonor.   A dona de casa Maria Francisca de Souza, beneficiária do programa, tem de lidar agora com o problema da obesidade dos filhos. A agente de saúde Cristiana da Silva Casaes foi a primeira a atender a família de Maria Francisca, no M’Boi Mirim, periferia de São Paulo. Há três meses, uma médica viu Adriana, a filha de Maria Francisca, e determinou: a menina, de 7 anos, não podia passar dos 35 quilos. De lá para cá, a mãe resolveu o problema fugindo da balança da farmácia.   "O que vou fazer? Só se costurar a boca da Adriana", diz Maria Francisca. Adriana faz três refeições em casa, se os vizinhos oferecerem comida ela aceita e na escola acrescenta um lanche e um "jantar". Quando o pai, ajudante de pedreiro, recebe um dinheiro, a despensa ganha iogurtes, bolachas e muitos pães. Aí é a vez de Adriano, o outro filho, atacar. Ele tem 9 anos e pesa 47 quilos.

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