REUTERS/Paulo Whitaker
REUTERS/Paulo Whitaker

OMS admite que ainda está ‘no escuro’ diante da zika

Pesquisadores da Organização Mundial da Saúde admitem que a luta contra o vírus será longa e onerosa para os governos

Jamil Chade, Correspondente de O Estado de S. Paulo

01 Fevereiro 2017 | 03h00
Atualizado 01 Fevereiro 2017 | 07h44

GENEBRA - Um ano depois de decretar emergência internacional por causa da proliferação do vírus da zika pelo mundo, a cúpula da Organização Mundial da Saúde (OMS) admite: “ainda está no escuro” diante de vários aspectos da doença, mesmo que muitas perguntas sobre o vírus tenham sido respondidas. A constatação faz parte de um documento usado pela OMS em uma reunião com doadores em janeiro para atualizar a comunidade internacional sobre quais serão os próximos passos. 

A agência de saúde da ONU estima que são pelo menos cinco as perguntas ainda sem respostas definitivas: Qual é o risco absoluto da síndrome congênita do zika? Quais os fatores de risco para a microcefalia? Qual é a extensão da infecção em áreas com o mosquito? Qual é o risco de transmissão sexual? E qual é o papel da imunidade natural em diferentes regiões com surtos que tenham ocorrido no passado?”

Só que a entidade já declarou o fim da emergência e optou por transformar o cenário de urgência em programa de longo prazo. Ao Estado, pesquisadores da agência admitiram que a luta contra o zika será longa e onerosa para os governos. Além de lidar com o mosquito vetor da doença, eles precisam preparar-se para ajudar famílias a lidar com crianças com má-formação e problemas que ainda nem sequer são conhecidos. 

No caso do Brasil, dados recebidos pela OMS nos últimos dias apontam que o verão fez ressurgir o número de casos, ainda que em um volume menor que o do surto de 2015 e 2016. Ainda assim, fontes dentro da própria OMS criticaram o fim da emergência, alertando que a decisão retirou o foco de doadores e foi prematura. 

Vivendo um processo eleitoral para escolher uma nova direção e substituir Margaret Chan no comando, a entidade vive o debate sobre sua credibilidade, duramente afetada nos últimos anos. Durante a campanha, muitos concorrentes disseram não concordar com o fim do status do vírus da zika e a forma de determinar emergências.

O Estado apurou que pelo menos uma candidata sugeriu que, se vencesse, mudaria o sistema de designação de uma emergência global e não concordava com o fim do status do zika.

Outra candidata, Sania Nishtar, confirmou ao Estado que, se vencer a eleição, mudará a forma de lidar com emergências e admitiu que a OMS "não estava pronta para o zika". 

Para sustentar essa posição, os críticos internos alertam que mesmo os dados oficiais da OMS reconhecem que a proliferação do vírus não acabou. Desde 2015, já são 70 os países identificados com a doença. As estimativas dos técnicos da entidade apontam que todos os lugares onde o mosquito vetor da doença, o Aedes aegypti, estiver presente, a população está ameaçada de contrair o vírus. No total, 2 bilhões de pessoas vivem nessas regiões. 

Mas, na avaliação da atual direção da entidade, a lógica é a de que o zika não irá desaparecer e, portanto, uma estratégia precisa ser estabelecida para ampliar os programas de pesquisa, os métodos de combate e introduzir a nova doença nas diversas iniciativas de saúde pública. "O vírus do zika está aqui para ficar", declarou Peter Salama, diretor-executivo da OMS. 

Além disso, a explicação dada hoje é de que, em 1 de fevereiro de 2016, a emergência internacional foi declarada por causa da incerteza que existia naquele momento em relação ao que ocorria no Brasil. "O mundo enfrentava uma incerteza se o vírus estava associado com a microcefalia", indicou a OMS. "Foi em grande parte por conta dessa incerteza que o surto foi declarado como uma emergência internacional. Hoje, enfrentamos uma situação diferente e muitas questões importantes foram respondidas", explicou o documento.

Para a OMS, portanto, a declaração da emergência ajudou a fazer avançar a pesquisa sobre o assunto e determinar quem de fato estava sob risco. 

Ainda assim, a avaliação interna reconhece claramente que as lacunas ainda são importantes. "Existem muitos aspectos do zika sobre os quais ainda estamos no escuro", indicou.  

A gerência da OMS estimou que a melhor forma seria a de desmontar a estrutura emergencial e criar um "programa de trabalho sustentável". "Em muitos aspectos, isso vai exigir um aumento das atividades para garantir que países possam lutar contra o zika e administrar suas complicações", indicou.

Até o final de 2017, a OMS estima que esse esforço precise de US$ 112 milhões. Mas, em 2016, a luta contra o zika recebeu apenas US$ 24 milhões. 

Vacina. Uma parte substancial dos recursos será destinado justamente para a pesquisa e uma agenda foi montada para tentar dar respostas às dúvidas sobre o vírus. Três prioridades foram estabelecidas e, nelas, o desenvolvimento de uma vacina é central. 

Hoje, existem um total de 40 vacinas sendo estudadas e cinco delas começam a fase de testes sobre segurança e capacidade de imunização. Até meados do ano, serão doze as vacinas nesta condição. Mas a própria OMS admite que espera os primeiros registros de produtos apenas em 2020. 

Quando esses produtos chegarem ao mercado, a entidade já definiu que as primeiras doses serão usadas para imunizar milhões de mulheres em idade de engravidar. 

Outro pilar da pesquisa é o controle do vetor. Em maio, a OMS quer que governos aprovem uma decisão ambiciosa para garantir que, até 2030, 75% das transmissões geradas por vetores em mosquitos sejam eliminadas. A estratégia inclui o 

Aedes, o que vai exigir não apenas melhores inseticidas, mas também melhor administração do lixo das cidades e seus esgotos. 

Outra medida sob estudo e implementada em sete lugares é o de "contaminar" o mosquito com bactérias. Isso acabaria impedindo que ele transmita doenças, como zika ou dengue.  Na avaliação da OMS, 17% das doenças transmissíveis poderiam ser eliminadas se essa estratégia funcionar, salvando por ano 700 mil vidas. 

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